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nada é mais livre que uma ideia

Como peças de dominó...

Na sexta-feira à noite pudemos assistir a um momento único de fusão de meios de comunicação e difusão viral. Os Contemporâneos (que estão a ganhar pontos e a aproveitar o momento menos inspirado dos Gatos) tiveram um rasgo de criatividade com uma paródia às músicas de solidariedade natalícias. “Salvem os ricos”: humor corrosivo, bons convidados, boas imitações e um tema actual. Poucos minutos depois, o vídeo estava no YouTube, com direito a links no Twitter, muitos posts em blogs e destaque na homepage do site do Bloco de Esquerda. Hoje, na última página do Público, apareceu a cereja em cima do bolo com a crónica de Rui Tavares. Num par de dias, os Contemporâneos e o seu sketch chegaram praticamente a toda a gente. Se é dos poucos que ainda não o viu, vale a pena vê-lo aqui enquanto nos conseguimos rir com a crise:



Mas a história será assim tão simples como os cartazes do Bloco espalhados por Lisboa nos querem fazer crer? O dinheiro dos nossos impostos está mesmo a servir para “salvar os milionários”? Ou seja, seria preferível ter deixado que os bancos em dificuldades fossem à falência?

A nossa economia respira através do sistema bancário e este vive da confiança. No instante em que metade dos depositantes quisessem levantar o dinheiro das suas contas, todos os bancos, sem excepção, entravam em ruptura e a maior parte das pessoas perderia o seu dinheiro. Todos os agentes financeiros dependem uns dos outros porque quando a confiança se rompe é todo o sistema que se desmorona... Sem depósitos, os bancos não têm dinheiro para emprestar, sem esse dinheiro não há consumo nem investimento, as bolsas afundam-se, as empresas e as famílias não compram. Sem consumo as empresas fecham e despedem os trabalhadores, reforçando o efeito num ciclo vicioso. Foi assim que aconteceu nos anos 30 e é assim que uma crise abstracta da alta finança se torna num problema para nós todos. É isso que o governo devia deixar acontecer?

Outro facto que fica esquecido é que, por enquanto, o dinheiro dos nossos impostos não foi para lado nenhum. Se tivesse ido, o défice orçamental de 2008 tinha disparado em vez de se manter nos 2,2% do PIB. Até agora, o que o Estado deu foram avais e garantias, ou seja, o Estado assumiu que, se os bancos não puderem pagar uns aos outros, o Estado paga. Mesmo a indemnização pela nacionalização do BPN depende da responsabilidade de quem o geria. Só num cenário catastrófico é que o Estado terá que transformar garantias em dinheiro e, mesmo assim, fica com direito aos activos dos incumpridores, como o edifício do BPP que serve de garantia real ao aval do Tesouro. O que esta intervenção dá aos bancos é confiança, não é dinheiro...

Claro que esta é uma ocasião fabulosa para a boa inspiração humorística e para o mau oportunismo político. Também é uma boa altura para não ficarmos satisfeitos com uma análise superficial do que está a acontecer. Este vídeo que encontrei no blog de um amigo não nos deixa a rir mas explica muito bem o problema. Agora só temos que esperar que aquilo que os governos por esse mundo fora estão a fazer seja suficiente para não cairmos todos como peças de dominó...