Estratégia Instantânea (II)

A estratégia tornou-se como os tempos. Instantânea. Mas quais serão os novos vectores de posicionamento? Na última vez que escrevi para o Diário Económico fiquei por aqui. Com esta pergunta.

Os tempos parecem ter desvalorizado a análise financeira, a análise dos mercados, a gestão de operações e uma razoável regra de cumprir as expectativas geradas às pessoas que connosco compartilham os destinos e desafios das organizações.

Julgo que tenho sido um razoável professor de gestão e de comportamento organizacional (nome pós moderno para psicologia aplicada ao que se passa dentro das empresas). Nos últimos tempos, contudo, sinto-me siderado pela minha incompetência. Numa rápida volta pelas livrarias, à procura de presentes não sei bem para quem, uma vez que uma pessoa até se pode sentir insultada quando lhe dão um livro, em vez de um frasco que custa no máximo quatrocentos paus dos antigos a produzir, mas que depois, quando se lhe junta um nome assim pró Dolce e Gabbana passa a ter de se expender sessenta ou setenta euros...

Mas dizia eu numa voltita às livrarias fui, inevitavelmente, dar também uma vista de olhos pela secção de gestão economia e ofícios correlativos. E, fiquei aterrado. Cuidava eu que saber qualquer coisa de análise financeira, mais de uns pozinhos pós modernos de psicologia social sob a forma de "segmentação de mercados" e os pês do posicionamento, mais umas contas de estatística e investigação operacional, mais dois dedos de conversa sobre motivação humana e a coisa safava-se.

Apanhei logo com "o que podemos aprender com os gansos". Os gansos? mas logo ao lado lá estavam eles, "os três porquinhos gestores" e o "síndrome do macho alfa". Presumi eu que era tudo pelas analogias do reino animal, quando vi "o peixe que não quis evoluir" e, sem tempo para me recompor descobria "o que podem ensinar os elefantes”. Claro está, "um pavão na terra dos pinguins" já fazia sentido e tudo, quem sabe, incluído na "selva empresarial".

Passei à secção da gestão mística e secreta. Com "o poder de uma hora" (o que faremos com duas?), seguidas d’"a magia da estratégia", através d’"os oito hábitos", incluindo "os sete poderes", sem esquecer a "estratégia oceano azul", o indispensável "re-imagine", uma das várias "a chave do sucesso", necessariamente "como ser brilhante" , eventualmente com "10 segredos simples". Seguia-se o menos homérico "Qualquer um consegue" e a necessidade de "gestores não mba's" escondidos na "a caixa dos tesouros"? Fiquei a saber que "talento não é tudo", que há também uma "inteligência moral", disseminadas n' "as leis não escritas"? pelo "o economista disfarçado"... que vai "de bom a excelente" e logo sem precisar de tomar balanço avança "de excelente a lider". Estive tentado com o "invista e fique rico", uma vez que investir e ficar pobre parece ser o caminho dos bancos ultimamente... Desconfiei fortemente do "winners never cheat" e desisti n'"o kama sutra dos negócios"...

Fiquei seriamente consternado e preocupado. Nada disto consta nas aulas que dou sobre estratégia, desconfio mesmo, que não conste de nenhum programa de Bolonha. Portanto será necessário um curso inteiro de gestão e mais dois ou três anos a ler estes estimulantes livros para efectivamente triunfar. Nem tudo é preocupante, pelo menos fiquei a saber que ainda há vagas na secção do que podemos aprender com as salamandras, com o rinoceronte e, quem sabe, com o coliforme fecal, entre outros.
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