O Mercado das Ideias de Gestão | José Manuel Fonseca |
idéias em série
O Mercado das Ideias de Gestão
12/05/2006 18:59 Autor: José Manuel
Fonseca
Poucos mercados estarão tão fragmentados, contudo,
tão ocupados como o das ideias luminosas para gerir
as empresas. O “sector” está hiper segmentado. Não
obstante, evidencia uma característica saliente e
comum. O Marketing. É que as ideias (produto) são
quase sempre apresentadas como improteláveis,
inelutáveis e inexoráveis, devendo, nós, aplicá-las
imediatamente sob pena da empresa ser arrastada para
um vergonhoso, e facilmente evitável, insucesso.
Bastará ler o capítulo introdutório de qualquer livro
sobre uma qualquer nova buzzword e lá estará, o aviso
e a ameaça velada: “this is a book about the future
that is already here and a book for people who expect
to be part of it”... Bom, e nós, ansiosos por
participar neste ou noutro qualquer futuro,
precipitamo-nos a ler com avidez. Ao fim ao cabo
todos “queremos chegar primeiro ao futuro”, pese
embora o facto de os tipos na Austrália chegarem
sempre com umas largas horas de avanço...
São já incontáveis os conceitos que foram introduzidos com significativa urgência e que já se tornaram produtos obsoletos ou monos. Nalgumas circunstâncias é difícil destrinçar o que é ciência do que se aproxima do ocultismo. Não tardará que o Dan Brown descubra o filão e quando se lhe esgotar a veia criativa na área dos romances “histórico-fantásticos”, pode bem tornar-se prelector da “abordagem Carolíngia da Gestão” e cobrar umas centenas de milhares de dólares por conferência...
Uma das últimas “trends” da coisa é a “inteligência emocional”. Aparentemente temos de ser menos racionalistas e mais emocionais. Portanto, o leitor deverá procurar um “mix” ideal, que inevitavelmente nos conduz à necessidade de sermos mais emocionais, mais cândidos, mais boas pessoas, mais espontâneos... E, apesar de não haver míngua de escalas para “aferir” o tipo de decisor ou executor que você é, descobrirá que a coisa é difícil sem a assistência de um especialista em inteligência emocional...
O Professor Damásio argumenta, do lado da ciência e com grande embaraço dos economistas mais ortodoxos, que sem a componente emocional somos péssimos decisores, ou pura e simplesmente não produzimos escolhas, ficamos bloqueados. Não possuímos a capacidade, por exemplo, de projectar no futuro as consequências das nossas decisões e acções presentes. O que seria uma maçada para quem tenha de calcular o VAL (valor actualizado líquido) de um projecto de investimento. Mas, o argumento do professor Damásio é que sempre tomámos decisões da mesma maneira. Não foi a partir do dia em que o Professor Damásio explicou a importância da parte emocional do cérebro que passámos a decidir com aquela geografia neurológica. As implicações dos argumentos do professor Damásio obrigam a rever algumas das concepções e explicações que possuíamos, mas não se trata de um fenómeno novo. Trata-se de uma nova abordagem de um fenómeno que existe desde que existem seres humanos. Uma abordagem que torna difícil continuar a sustentar a existência desse ser mitológico dos iluministas escoceses – o homem económico, o ser racional. Contudo, o professor Damásio abriu um importante mercado. E já se sabe que o mercado, como a natureza, tem horror ao vazio. O mercado das “emoções” foi rapidamente ocupado. E uma geração de “engenheiros” de almas surgiu para nos oferecer um saber que tendo por base argumentos poderosos, interessantes e sobre os quais devemos reflectir, rapidamente transformou esses conceitos que nos obrigam a pensar, em produtos coloridos, “happy meals” inócuas mas muito lucrativas, com muitos canais de distribuição, “teasers” excelentes, e preços por vezes em “discount”. Como muitas outras ideias que o leitor deve aplicar à sua empresa, verá que o conduzem àquele local em que a solução nos remete para a necessidade de sermos melhores pessoas. Para o problema do mundo perfeito. Mas, num mundo perfeito nem precisaríamos de gestão...
Neste tempos, e talvez admirável mundo novo, das especializações “new age”, por vezes parece-me um milagre extraordinário que estejamos vivos. Aliás, que tenhamos nascido, desde logo. Como puderam os nossos antepassados, pais, avós, bisavós, e por aí adiante, ter perpetuado a raça humana sem a impreterível assistência de tantos e tantos especialistas em sexologia por vezes tântrica, em nutricionismo, em “pedopsicopedagogia”, em pensamento lateral e criativo...
Como puderam as empresas sobreviver sem tantos e tantos especialistas em semântica?
São já incontáveis os conceitos que foram introduzidos com significativa urgência e que já se tornaram produtos obsoletos ou monos. Nalgumas circunstâncias é difícil destrinçar o que é ciência do que se aproxima do ocultismo. Não tardará que o Dan Brown descubra o filão e quando se lhe esgotar a veia criativa na área dos romances “histórico-fantásticos”, pode bem tornar-se prelector da “abordagem Carolíngia da Gestão” e cobrar umas centenas de milhares de dólares por conferência...
Uma das últimas “trends” da coisa é a “inteligência emocional”. Aparentemente temos de ser menos racionalistas e mais emocionais. Portanto, o leitor deverá procurar um “mix” ideal, que inevitavelmente nos conduz à necessidade de sermos mais emocionais, mais cândidos, mais boas pessoas, mais espontâneos... E, apesar de não haver míngua de escalas para “aferir” o tipo de decisor ou executor que você é, descobrirá que a coisa é difícil sem a assistência de um especialista em inteligência emocional...
O Professor Damásio argumenta, do lado da ciência e com grande embaraço dos economistas mais ortodoxos, que sem a componente emocional somos péssimos decisores, ou pura e simplesmente não produzimos escolhas, ficamos bloqueados. Não possuímos a capacidade, por exemplo, de projectar no futuro as consequências das nossas decisões e acções presentes. O que seria uma maçada para quem tenha de calcular o VAL (valor actualizado líquido) de um projecto de investimento. Mas, o argumento do professor Damásio é que sempre tomámos decisões da mesma maneira. Não foi a partir do dia em que o Professor Damásio explicou a importância da parte emocional do cérebro que passámos a decidir com aquela geografia neurológica. As implicações dos argumentos do professor Damásio obrigam a rever algumas das concepções e explicações que possuíamos, mas não se trata de um fenómeno novo. Trata-se de uma nova abordagem de um fenómeno que existe desde que existem seres humanos. Uma abordagem que torna difícil continuar a sustentar a existência desse ser mitológico dos iluministas escoceses – o homem económico, o ser racional. Contudo, o professor Damásio abriu um importante mercado. E já se sabe que o mercado, como a natureza, tem horror ao vazio. O mercado das “emoções” foi rapidamente ocupado. E uma geração de “engenheiros” de almas surgiu para nos oferecer um saber que tendo por base argumentos poderosos, interessantes e sobre os quais devemos reflectir, rapidamente transformou esses conceitos que nos obrigam a pensar, em produtos coloridos, “happy meals” inócuas mas muito lucrativas, com muitos canais de distribuição, “teasers” excelentes, e preços por vezes em “discount”. Como muitas outras ideias que o leitor deve aplicar à sua empresa, verá que o conduzem àquele local em que a solução nos remete para a necessidade de sermos melhores pessoas. Para o problema do mundo perfeito. Mas, num mundo perfeito nem precisaríamos de gestão...
Neste tempos, e talvez admirável mundo novo, das especializações “new age”, por vezes parece-me um milagre extraordinário que estejamos vivos. Aliás, que tenhamos nascido, desde logo. Como puderam os nossos antepassados, pais, avós, bisavós, e por aí adiante, ter perpetuado a raça humana sem a impreterível assistência de tantos e tantos especialistas em sexologia por vezes tântrica, em nutricionismo, em “pedopsicopedagogia”, em pensamento lateral e criativo...
Como puderam as empresas sobreviver sem tantos e tantos especialistas em semântica?
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