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O Paradoxo das Pessoas Perfeitas | José Manuel Fonseca | idéias em série

O Paradoxo das Pessoas Perfeitas

Actualmente enfrentamos um contexto de incerteza crescente. As relações de causa e efeito estáveis, aqui há umas décadas, parecem ter dado lugar a verdadeiras cadeias de causalidades circulares que tornam o mundo, por vezes, pouco compreensível. Desde os múltiplos factores que “explicam” a subida dos preços dos combustíveis, à instabilidade política, à sucessão de coisas mais prosaicas como soluções para armazenar dados, que perecem em meses. Alguém se lembra da tecnologia DAT que era oferecida no mercado com o nome comercial sugestivo de “Jazz”? Às soluções de conexão de periféricos que mudam de geração em geração de computadores a ritmo que nos deixa as gavetas cheias de cabos, com nomes estranhíssimos como “Scusi”, mas que aparentemente já só interessam a arqueólogos e antropólogos...

Não sei se os meus colegas economistas concordarão com uma crescente dificuldade em prever “retomas”, nem com a existência de perplexidade em face das sucessivas previsões de crescimento revistas em baixa, que nos deixam com dificuldade em perceber o “feel good factor” que alguns políticos parecem ver a despontar um pouco por todo o lado. Talvez as métricas estejam a ser afinadas para esta economia mais imaterializada e, em breve, a precisão à casa centesimal seja de novo uma forma de vida e não uma fonte de anedotas. Mais “abaixo”, nas organizações empresariais, a incerteza também deixa os gestores à beira de um ataque de nervos. No contexto presente, a maior parte das organizações já eliminou camadas e camadas de níveis hierárquicos, na senda da organização magra. Já enviámos para fora das organizações algumas dezenas de tarefas que em “outsourcing” serão, por certo, realizadas a menor custo. Nalgumas organizações já tornámos parceiros os clientes e os fornecedores, já “horizontalizámos” tudo o que era possível, já temos processos transversais, que nos permitem grandes ganhos de eficiência e de eficácia. Não obstante, não é suficiente. A competição é inexorável e implacável. Necessitamos ainda de mais eficiência e de mais eficácia. Aparentemente, chegámos a um ponto em que temos de exigir ainda mais das pessoas que desenvolvem a sua actividade nas organizações.

Contudo, parece ter sido descoberto um novo paradigma para lidar com esta realidade que nos gera tanta ansiedade. O mecanismo de acomodação da incerteza e de adaptação organizacional são os gestores intermédios. Todos os que têm responsabilidades funcionais e hierárquicas, responsabilidades sobre projectos ou “task forces” ou “work groups”. Portanto, um conjunto alargado de colaboradores. E o que se pretenderá desta gesta?

Tão somente que sejam eficientes no decurso das tarefas rotineiras do quotidiano mais previsível e que, adicionalmente, contribuam para a “conceptualização” do futuro. Isto é, que ao mesmo tempo que se devem focalizar em eliminar toda a redundância, nas actividades e processos presentes, visando maximizar os resultados, qualquer que seja a unidade de medida destes, também se preocupem com a reformulação da sua actividade quotidiana por forma a que a organização se torne flexível, adaptativa e sempre no “cutting edge”, permanentemente em antecipação dos desafios do futuro...

Estes gestores intermédios, estão mais perto das interacções concretas com clientes, com fornecedores, com outros agentes do e no mercado, desenvolvendo um conhecimento tácito e explícito mais fluído sobre o que se está a passar. São eles que têm de adequar em cada momento as respostas no quadro das políticas da empresa. São eles que possuem a capacidade para moldar às necessidades concretas dos clientes, em cada momento, os recursos que a empresa dispõe para configurar produtos e serviços que correspondam aos desejos dos clientes. Portanto são eles que possuem simultaneamente, em primeira mão, o acesso à informação crucial sobre o que é validado no presente e o que evidencia traços de mudança que pode configurar um padrão novo no futuro. É deles que se espera as sugestões sobre como faremos funcionar a empresa amanhã. Portanto, serão seres organizados e criativos.

Não estou certo que os que prescrevem esta recomendação estejam conscientes do que isto significa em termos psicológicos...

Deixo apenas uma interrogação adicional. Antes, estas pessoas enfrentavam o emprego para a vida. E agora?
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