Não faltam livros de gestão com soluções e métodos infalíveis. Não é isso que vai encontrar aqui. Este site é o arquivo dos artigos publicados quinzenalmente no Diário Económico, narrativas e reflexões sobre experiências reais, provocações para quem quiser discutir o que significa hoje gerir.

Pesquisa

É a Economia, estúpido | José Manuel Fonseca | idéias em série

É a Economia, estúpido

Receio bem que estejamos a perder o pé. À realidade nua e crua do ultra liberalismo chinês respondemos, na Europa, com a “fabricação” de realidades fictícias. “Razões de Ganho” era o nome de um questionário que tive de aplicar recentemente numa acção de formação dessas com o elevadíssimo patrocínio da “Europa”. Europa, esse lugar mágico de fantasias benignas e protectoras, para onde remetemos, por enquanto, os medos dos perigos que se escondem em nuvens ameaçadoramente escuras.

A tal razão de ganho era, apenas, mais um dos múltiplos questionários a aplicar numa sessão de um dia de formação. Releva da necessidade de demonstrar o bom gasto do dinheiro e a evidenciar a extraordinária eficácia dos gestos expendidos nessa formação. Os questionários são respondidos no inicio e no fim. Podendo-se medir e evidenciar o diferencial de aprendizagens, porque “necessariamente” as pessoas respondem mal de manhã e muitíssimo bem no final da tarde.

Claro está, afianço-vos, o ganho daquelas pessoas na sua participação, naquele dia em concreto, naquela formação comigo foi ciclópico. Na ordem dos seiscentos por cento ou mais.... Posso mesmo dizer que sem aquela formação a vida daquelas pessoas decorreria sem a iluminação alcançada e cuja razão de ganho foi tão clara.

Agora estenderemos as razões de ganho a mais de 250.000 almas que ao fim de variadíssimos processos prenhes de razões de ganho sairão com a ilusão de qualificação e com papéis a atestar para que as pessoas não pensem que sonharam com a coisa. As estatísticas remeter-nos-ão uns larguíssimos furos para cima em tabelas e ratings sofisticadíssimos e a cores. As pessoas, mais bem qualificadas no papel, seguirão para novas abordagens construtivas de desemprego, ou permanecerão a fazer aquilo que resto já faziam bem ou mal, mais papel menos papel.

Alguns politécnicos e universidades privadas sobreviverão graças a este processo, algumas escolas secundárias evitarão ter de se diversificar para o competitivo sector dos eventos e organização de casamentos e o país criará uma belíssima miragem benigna, bondosa, paternalista.

Nem que para isso tenhamos de inventar novas palavras como aquelas que aprendi com um amigo meu que me disse que um garoto adolescente analfabeto se designava por “não escrevente” e “não lente”! Por certo esta criança protegida dos impropérios pouco pós modernos é agora um feliz “acartador de baldes de cimento de terceira classe com escassas perspectivas de promoção verticalizadora e habilitadora de uma expectativa de superior remuneração capacitadora de alargamento da esperança de aumento substantivo da qualidade de vida”!

Manter-se-á ainda, claro está, não lente e não escrevente. Os professores que foram protegidos da difícil interacção de confrontar o miúdo ou os seus pais para a crua e dura realidade, por certo dormirão mais reconciliados com a sua existência. Até porque se forem realmente espertos não se metem a contraria um sistema idiota que prefere municiar-se de belos conceitos em lugar de enfrentar a dura realidade da geração 500 euros and counting...

O miúdo, presumivelmente, mais crescido andará por aí, analfabeto, quem sabe já analfabruto....

Em breve as maçãs que comemos serão chinesas e vêm contaminadas com pesticidas, mas serão muito baratas, e nós, após turbilhões de dinheiro gasto e dezenas de discursos bem intencionados estaremos tão longe da economia do conhecimento quanto estávamos anteontem...
|