Não faltam livros de gestão com soluções e métodos infalíveis. Não é isso que vai encontrar aqui. Este site é o arquivo dos artigos publicados quinzenalmente no Diário Económico, narrativas e reflexões sobre experiências reais, provocações para quem quiser discutir o que significa hoje gerir.

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A gestão como ela é | Rui Grilo | idéias em série

A gestão como ela é

A gestão está a tornar-se cada vez mais importante. Toca-nos a todos, quando trabalhamos numa organização, quando corremos o risco de ser despedidos por causa de misteriosos indicadores financeiros ou quando precisamos das empresas como consumidores dos seus produtos e serviços. Apesar de ser uma actividade tão próxima de cada um de nós, quando procuramos textos sobre gestão de empresas o mais normal é encontrarmos referências a gestores conhecidos, como Jack Welch ou Bill Gates, ou um jargão feito de siglas e conceitos abstractos que estejam na moda... Porque é que isto acontece?

Esta pergunta pode ter várias respostas, mas é certamente mais fácil e seguro escrever sobre líderes míticos ou indicadores numéricos do que encarar as dúvidas e dificuldades que acompanham a vida real dos gestores que conhecemos em qualquer organização. Mas, apesar de ser difícil, é preciso fazer precisamente isso, tentar compreender um pouco mais da gestão tal como é vivida no dia-a-dia das nossas empresas. Acredito que vale a pena explorar a forma como todos nós interagimos uns com os outros quando trabalhamos numa organização. Dessa forma, poderemos chegar mais perto da realidade da gestão, levando a sério as nossas próprias experiências profissionais e reflectindo sobre essas experiências.

A gestão, enquanto disciplina do conhecimento humano, está num cruzamento curioso entre a fria análise dos números e a quente sensibilidade para a interacção entre as pessoas. Isso coloca-a num espaço incómodo, no qual é difícil encontrar certezas. Ainda assim, fala-se sobre a gestão como se fosse a actividade humana mais óbvia e sem mistérios. Por exemplo, enquanto estava a desenvolver uma parte da pesquisa para o meu doutoramento, mostrei alguns livros e artigos sobre gestão de projectos a um colega de trabalho. Ele olhou para eles, um pouco incrédulo, e comentou que era espantoso como as pessoas perdiam tanto tempo a escrever sobre uma coisa tão simples. Afinal, continuou ele, para gerir um projecto basta definir as tarefas, estabelecer prazos, definir responsáveis para cada tarefa e depois realizar reuniões regulares de controlo, punindo os atrasos e premiando quem cumpre. A velha fórmula da cenoura e do chicote...

Será que a gestão é assim tão simples? Penso que não. Gerir um projecto envolve processos complexos como os que nos levam a ganhar a confiança das pessoas com quem trabalhamos ou a contribuir para que o grupo envolvido possa desenvolver relações de trabalho produtivas. Estes processos são complexos, na minha perspectiva, porque nunca sabemos exactamente como os outros responderão aos nossos gestos e às nossas acções. Para além da razão, nas organizações estão presentes emoções humanas tão importantes como a vergonha, o orgulho, a alegria, a frustração ou mesmo a humilhação. E afinal, porque será que esta complexidade é tão facilmente varrida para debaixo do tapete?

Gerir provoca ansiedade, confronta-nos com as nossas responsabilidades, as nossas dúvidas e as nossas incertezas. Ser competente ou incompetente não é indolor, é algo extremamente importante para a nossa auto-estima e até para a nossa identidade enquanto pessoas. Gerir faz-nos depender dos outros, de todas as pessoas com quem trabalhamos, e isso, muitas vezes, assusta. Talvez seja por isso que tendemos a simplificar o que é complexo, procurando receitas simples e modelos a seguir. Mas conseguiremos gerir melhor se não nos questionarmos sobre o que fazemos e porque o fazemos? Penso que não.

É essa a perspectiva que vai encontrar, quinzenalmente, neste espaço. Esta é a primeira de uma série de crónicas escritas por gestores, narrativas e reflexões baseadas em experiências reais que esperamos que nos possam ajudar a discutir o que significa hoje gerir. Estas crónicas são, por isso mesmo, também um convite aos leitores para nos fazerem chegar a sua reacção, dizendo-nos de que forma a nossa experiência se relaciona com aquilo que vivem, todos os dias, nas suas organizações. Talvez isso nos ajude a todos a gerir melhor ou, pelo menos, a pensar de forma diferente sobre a forma como gerimos.
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