Qualquer cor é boa desde que seja preto | José Manuel
Fonseca | idéias em série
Qualquer cor é boa desde que seja preto
15/06/2007 19:11 Autor: José Manuel
Fonseca
O assunto é apaixonante. E, sobre ele, têm opinado
desde caixeiros viajantes a críticos literários,
todos munidos de dados insofismáveis e assentes nas
melhores premissas. Há professores de direito que
afirmam peremptórios que o assunto é grave demais
para ser deixado a engenheiros. Há engenheiros
electrotécnicos que pugnam pela solução ambiental
mais equilibrada. Há políticos que terçam argumentos
baseados em leis da física e teorizam sobre
deslocações de terras e aquíferos. Há economistas
preocupados com corredores de aproximação e ventos
laterais.
Eu por mim recordo-me de ter folheado, online, uns estudos, com datas diversas mas em geral antigas, baseados em cenários de estonteantes crescimentos económicos, e que “demonstravam” que o mundo inteiro sentiria uma enorme urgência em vir a Lisboa a partir de dois mil e dez ou data aproximada. Pareciam-me curtos e bastante ligeiros mas como sou um completo ignorante na matéria provavelmente os estudos eram sofisticadíssimos.
Mas a coisa parece urgente e quiçá mesmo tardia porque segundo se sabe há inúmeros voos recusados quase hora a hora na Portela.
A necessidade de andar depressa anda compaginada com um enorme ruído de fundo. Aparentemente, as localizações alternativas brotam agora como cogumelos. Parece que há também interesses sinistros por trás de cada opção. Desde o alegado e injustificável interesse no Poceirão por parte do concessionário do atravessamento na Ponte Vasco da Gama que tanto tem preocupado o Professor Vital Moreira, até à especulação imobiliária que se alinha em qualquer local. Por trás do aeroporto está, sem dúvida, o interesse nacional com paladares mais ou menos regionalistas e modelos de desenvolvimento e ordenamento do território e novas centralidades e novas polaridades para todos os paradigmas. A estas vontades e “bondades” juntaram-se, dir-se-ia inevitável e inexoravelmente entre nós, argumentos bizantinos de desertos e atentados bombistas em pontes. Embora, neste particular, e com a campanha eleitoral para Lisboa ainda tão madrugadora, é bom não fazer já o balanço das frases espectaculares, não vá algum candidato propor um aeroporto novo em Alcântara ou em Carcavelos.
Eu por mim espero apenas ter um aeroporto qualquer para apanhar um avião de vez em quando. Confesso que gosto pouco do meio de transporte. Em geral, os aeroportos e os aviões cheiram mal. É um meio de deslocação que nos arruma, por vezes em tempo infindável, num espaço demasiado exíguo com pouquíssimas possibilidades de nos mexermos sem causar incómodo a terceiros. Actualmente, espera-se imenso por controlos de segurança e check ins e por voos de ligação sempre com a atraente possibilidade de um fanático do califado nos atirar pelos ares. A comida, nos aeroportos e nos aviões, é digna de ser analisada pelos zelotas da ASAE e pelos fanáticos da alimentação saudável. Os preços de uma sandes de fiambre já seco, em qualquer bar de aeroporto, desafiam os do caviar beluga no free shop. Duvido que com ou sem aeroporto novo se evite a nossa situação periférica de ter de apanhar voos de ligação para qualquer sitio menos frequentado como sejam segundas cidades europeias, já para nem mencionar destinos mais longínquos ou exóticos. Para quem parte para já a única promessa é a de mais um meio dia dedicado à deslocação. Esperemos, portanto, que um novo aeroporto traga mais e mais gastadores para aumentar o PIB indígena.
Uma vez que o investimento não é despiciendo e que de facto os efeitos a médio prazo serão significativos, eventualmente promovendo reconfigurações a nível territorial de carácter social e económico bastante importantes, convinha não aplicar ao processo de decisão a máxima do Henry Ford. Parece, de facto, que todas as localizações são boas desde que sejam na Ota.
Eu por mim recordo-me de ter folheado, online, uns estudos, com datas diversas mas em geral antigas, baseados em cenários de estonteantes crescimentos económicos, e que “demonstravam” que o mundo inteiro sentiria uma enorme urgência em vir a Lisboa a partir de dois mil e dez ou data aproximada. Pareciam-me curtos e bastante ligeiros mas como sou um completo ignorante na matéria provavelmente os estudos eram sofisticadíssimos.
Mas a coisa parece urgente e quiçá mesmo tardia porque segundo se sabe há inúmeros voos recusados quase hora a hora na Portela.
A necessidade de andar depressa anda compaginada com um enorme ruído de fundo. Aparentemente, as localizações alternativas brotam agora como cogumelos. Parece que há também interesses sinistros por trás de cada opção. Desde o alegado e injustificável interesse no Poceirão por parte do concessionário do atravessamento na Ponte Vasco da Gama que tanto tem preocupado o Professor Vital Moreira, até à especulação imobiliária que se alinha em qualquer local. Por trás do aeroporto está, sem dúvida, o interesse nacional com paladares mais ou menos regionalistas e modelos de desenvolvimento e ordenamento do território e novas centralidades e novas polaridades para todos os paradigmas. A estas vontades e “bondades” juntaram-se, dir-se-ia inevitável e inexoravelmente entre nós, argumentos bizantinos de desertos e atentados bombistas em pontes. Embora, neste particular, e com a campanha eleitoral para Lisboa ainda tão madrugadora, é bom não fazer já o balanço das frases espectaculares, não vá algum candidato propor um aeroporto novo em Alcântara ou em Carcavelos.
Eu por mim espero apenas ter um aeroporto qualquer para apanhar um avião de vez em quando. Confesso que gosto pouco do meio de transporte. Em geral, os aeroportos e os aviões cheiram mal. É um meio de deslocação que nos arruma, por vezes em tempo infindável, num espaço demasiado exíguo com pouquíssimas possibilidades de nos mexermos sem causar incómodo a terceiros. Actualmente, espera-se imenso por controlos de segurança e check ins e por voos de ligação sempre com a atraente possibilidade de um fanático do califado nos atirar pelos ares. A comida, nos aeroportos e nos aviões, é digna de ser analisada pelos zelotas da ASAE e pelos fanáticos da alimentação saudável. Os preços de uma sandes de fiambre já seco, em qualquer bar de aeroporto, desafiam os do caviar beluga no free shop. Duvido que com ou sem aeroporto novo se evite a nossa situação periférica de ter de apanhar voos de ligação para qualquer sitio menos frequentado como sejam segundas cidades europeias, já para nem mencionar destinos mais longínquos ou exóticos. Para quem parte para já a única promessa é a de mais um meio dia dedicado à deslocação. Esperemos, portanto, que um novo aeroporto traga mais e mais gastadores para aumentar o PIB indígena.
Uma vez que o investimento não é despiciendo e que de facto os efeitos a médio prazo serão significativos, eventualmente promovendo reconfigurações a nível territorial de carácter social e económico bastante importantes, convinha não aplicar ao processo de decisão a máxima do Henry Ford. Parece, de facto, que todas as localizações são boas desde que sejam na Ota.
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