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O que não se controla | Rui Grilo | idéias em série

O que não se controla

A vida em diferentes organizações, privadas ou públicas, tem por vezes semelhanças extraordinárias. Tenho ouvido nas últimas semanas várias histórias, contadas por pessoas que trabalham em diferentes empresas e organismos públicos, que partilham um traço comum muito claro: a ansiedade e a sensação de vazio que uma mudança esperada provoca enquanto não se concretiza. O mais curioso nas várias narrativas é que não é a mudança em si que desperta essas emoções difíceis, mas sim a perda de sentido que a espera provoca. E a pergunta que surge é muito simples: “Se tudo vai mudar, que faço eu aqui?”

O trabalho ocupa um espaço demasiado grande na nossa vida para não ter algum sentido para lá da mera subsistência. Por vezes esse sentido está associado ao resultado imediato que se obtém, como para o médico que cura uma doença ou para o bombeiro que salva uma vida. Outras vezes é a ambição ou objectivos materiais concretos que preenchem esse sentido, enquanto muitas pessoas encontram conforto no sentimento de pertencer a um grupo ou a uma equipa com a qual se identificam. Seja qual for a forma de a satisfazer, a necessidade é comum a todos. É preciso dar algum sentido ao espaço que a vida profissional consome.

Quando esse sentido é posto em causa, a resposta emocional é inevitável e afecta, em última análise, o bem-estar e a produtividade de quem sente o seu trabalho vazio de sentido. Foi essa a sensação que me transmitiu um amigo meu que trabalha num organismo público cuja extinção foi anunciada mas tarda em definir-se. Que fazer enquanto se espera por uma definição? Como é que o dia-a-dia pode correr de forma aparentemente normal entre pessoas que não sabem qual vai ser o seu futuro imediato nem têm qualquer controlo sobre ele? Pior, quanto custa a desmotivação que leva toda uma organização a parar enquanto espera?

Outra pessoa com quem eu trabalhei, e que tem responsabilidades de gestão numa empresa que está a sofrer uma transformação profunda, partilhou comigo a sua dificuldade em transmitir segurança e motivar as pessoas que trabalham com ela quando ela própria também não tem respostas enquanto aguarda que a situação se defina… Quem tem responsabilidades de gestão, a qualquer nível, mesmo o mais elevado, não escapa a estas emoções, mesmo que se sinta na obrigação de disfarçar mais do que todos os outros. Noutro caso, em vez da sensação de vazio, parece que foi o pânico que se instalou, com cada pessoa a não olhar a meios para se “salvar” da mudança anunciada, na fantasia de poder controlar os acontecimentos evidenciando-se e tentando mostrar a sua competência.

A mudança faz parte da experiência de trabalho da maior parte das pessoas. Por vezes, temos a oportunidade de decidir que queremos mudar, mas muitas vezes são as circunstâncias que nos obrigam a enfrentar mudanças, muitas vezes de forma inesperada, impossível de controlar ou sequer de influenciar. É nessa altura que falham as competências tradicionais que os profissionais da gestão costumam desenvolver no seu percurso. Não há planeamento, controlo ou análise que nos ajude a lidar com a situação. Ficamos sós perante o problema e acabamos muitas vezes por evitar lidar com o que está a acontecer, procurando manter uma normalidade aparente até ao limite das nossas forças.

É normal para quem gere assumir que tem a responsabilidade de controlar tudo o que está a acontecer. Controlo é sinónimo de boa gestão para muita gente. Assim, para um gestor, se está a acontecer alguma coisa fora do seu controlo, isso é sentido como um fracasso perante a sua equipa. Mas mais importante do que a responsabilidade de controlar é a responsabilidade de gerir o que de facto acontece e assumir com frontalidade as suas consequências. Quem gere uma organização ou uma equipa pode não a conseguir proteger de todos os embates, mas tem a responsabilidade de assumir esses embates, sobretudo os que não se controlam.
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