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Alternativas ao Homo Economicus | João Vieira da Cunha | idéias em série

Alternativas ao Homo Economicus

Há um conjunto de trabalhadores em cada empresa que correspondem às expectativas dos economistas. São os homo economicus ou busca-bónus: indivíduos que ajustam o seu comportamento de forma a maximizar o bónus que resulta do atingimento dos objectivos que lhes são propostos. A carreira não é a sua preocupação principal e muitos recusam promoções porque sabem que a sua competência para atingir resultados através do seu próprio esforço pode não se reflectir nas capacidade de os atingir através dos outros. A sua progressão segue uma lógica meramente material. Preocupam-se não com o seu desenvolvimento ou com o nível de desafio das suas tarefas mas sim com as mudanças no valor do seu bónus e no esforço necessário para o atingir. Esta orientação para os resultados pode levar a práticas abusivas de vendas, pequenas e grandes fraudes e outros comportamentos não éticos. Pior – a sua motivação para cumprir objectivos não transborda para as outras áreas da sua relação com a organização. Não partilham conhecimento, não estão interessados aprender com os outros nem contribuem de forma formal ou informal para a sustentabilidade estratégica da empresa. Estão lá apenas para cumprir o que lhes é pedido e ganhar os prémios daí resultantes.

Há, no entanto, outros tipos de pessoas que têm relações muito diferentes com o trabalho.

Os salta-escadas têm como objectivo subir rapidamente para o lugar do chefe do chefe do chefe do chefe. Ascenções vertiginosas deste tipo não se conseguem atingindo os objectivos, trepando a hierarquia a pulso, degrau a degrau. Estes colaboradores não tem paciência para carreiras incrementais. Por isso passa a maior parte do seu tempo a diagnosticar e a usar em seu próprio proveito as redes informais de poder. Tipicamente, estas estrelas têm pouco tempo para se dedicar às tarefas mundanas necessárias ao comprimento dos objectivos que lhes são impostos. O bónus que perdem é um pequeno custo comparado com o salário que esperam alcançar quando finalmente conseguirem estabelecer as relações de influência necessárias ao seu grande salto na carreira.

Os trepa-escadas são mais modestos. Contentam-se com seguir as pisadas de quem os gere. Ocupam as cadeiras que os seus superiores vão deixando vazias à medida que progridem na organização. Estes seguidores profissionais têm grande prazer em ser os ajudantes dos seus líderes. Fazem muitas das tarefas mais administrativas, mais rotineiras e menos gratificantes que integram os deveres e obrigações de quem manda. Pouco a pouco aprendem a gerir com mais eficiência do que eficácia. São uma aposta segura. São um séquito leal com quem os gestores em ascensão podem contar. São os braços das teias informais que existem em todas as empresas. Acumulam em surdina créditos de favores que dificilmente terão vontade e oportunidade de cobrar.

O ganha-pão é o mais curioso deste espécimes, mas infelizmente para os economistas não é o mais raro. Os membros desta categoria não têm nenhuma ambição de carreira nem têm qualquer interesse pelas promessas de bónus milionários. São pessoas que constroem a sua identidade fora do local de trabalho. São o campeão europeu de cartas do Senhor dos Aneis que vende refrigerantes para pagar o seu hobby, o analista financeiro que é um dos avatares mais populares do ‘Second Life’, ou mesmo o operador de call center que é um dos fotógrafos amadores mais promissores da sua geração. A sua ligação com a empresa é muito ténue e o trabalho é apenas um empecilho necessário para sustentar ambições pessoais que têm poucas recompensas económicas.

A pergunta crucial é esta: qual é o mix de trabalhadores em cada empresa? A resposta dita a não só a eficácia da visão e dos incentivos mas também determina a proporção de pessoas sustentam o desempenho da organização. Na única empresa onde passei tempo suficiente para descobrir esta informação, apenas 20% das pessoas eram busca-bónus. Havia 19% de trepa escadas, 1% de salta-escadas e 56% estavan na categoria ganha-pão. Preocupante, não é?
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