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Boas Intenções | José Manuel Fonseca | idéias em série

Boas Intenções

Uma das coisas mais perigosas que existem são as pessoas bem intencionadas. Em geral, estas pessoas possuem uma visão de como é que o mundo poderia ser perfeito. E, numa posição de poder, legislam para que o mundo se aproxime do estado visionado. Há muitos anos tive ocasião de testemunhar como, através de um sistema de incentivos denominado RIME, se tentou produzir por esse pais fora, empresários e empreendedores a partir de gente que tinha ficado sem trabalho, e, que no geral possuía qualificações muito pouco notáveis. Através de um “curso” de gestão muito rápido e prenhe de swot’s e mix de marketing e meia dúzia de indicadores de gestão financeira, e da promessa de incentivos e de um projecto de investimento sempre com VAL satisfatório e TIR’s ainda mais bondosas. No final, dados os tradicionais atrasos nos pagamentos de incentivos, pouca gente se terá ficado a rir. Conheci bastantes que ficaram afogados nos leasings, incapazes de gerir os compromissos financeiros decorrentes da exploração que nunca correu como os risonhos planos financeiros dos projectos.

Mas, a intenção era muito boa. Por todo o lado, floresceriam, como rosas, pequenas iniciativas empresariais e o mundo seria promissor para gente que ainda nem um ano atrás estava a tentar lidar com a frustração de perder um emprego. Infelizmente, a realidade é mais cruel, e a engenharia de produção de empresários/as a partir de gente que tinha sido bordadeira ou ajudante de pedreiro ainda não está suficientemente afinada. Depois, claro está, muita desta gente que tinha investido as parcas economias e as magras indemnizações ficou ainda com dívidas e projectos falidos.

Agora, de novo, temos mais uma boa vaga de intenções. Votada, segundo percebi, por unanimidade pelo parlamento e já promulgada pelo Presidente da República está uma lei que visa acabar ou pelo menos combater a descriminação de pessoa que "sofra de qualquer patologia que determine uma alteração orgânica ou funcional irreversível, de longa duração ou evolutiva, potencialmente incapacitante, sem perspectiva de remissão completa e que altere a qualidade de vida do portador a nível físico mental emocional e económico e seja causa potencial de invalidez precoce ou de significativa redução de esperança de vida".

À partida, ninguém pode obstar nada. Finalmente, e à semelhança de países nórdicos, seremos uma sociedade de igualdade de oportunidades. Por exemplo, os “malandros” dos seguros de vida, terão, agora, de concretizar um seguro de vida a qualquer cidadão que tenha tido já sete acidentes vasculares cerebrais, tenha mais de seiscentos de colesterol, mais de duzentos de diabetes, beba seis litros de café por dia, só coma enchidos de Barrancos. E mais, o preço do seguro terá de ser idêntico ao preço cobrado àquele outro cidadão que tem fisiologia e biologia de campeão olímpico de natação. Suponho, que existirá uma excepção. Os “criminosos” dos fumadores serão os únicos a poder ser discriminados negativamente. Sendo as coisas como são, os preços dos seguros de vida vão subir em flecha, para todos. Ou então a actividade vai pura e simplesmente cessar, e o “Estado”, ou seja nós, vai criar uma empresa de seguros de vida, e vamos todos pagar “sinistros”, porque não estou a ver as seguradoras a alterarem a missão empresarial. De negócio que era legítimo, embora por vezes questionável, como de resto qualquer outro, para actividade substituta do euro-milhões e da Santa Casa de Misericórdia. Uma coisa é certa, este ano já com a reforma de Bolonha a cadeira de cálculo actuarial vai desaparecer. É no mínimo uma cadeira promotora de discriminação.
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