Chamem a Miss Marple | José Manuel Fonseca | idéias em
série
Chamem a Miss Marple
23/06/2006 19:02 Autor: José Manuel
Fonseca
Uma notícia, sem grandes parangonas, dava conta de
uma coisa absolutamente desarmante. Aparentemente,
tivemos – parece que ainda temos – uma dúzia de
aviões de combate encaixotados desde há anos. Não há
nada de surpreendente nesta questão. Provavelmente
tenho estado distraído, mas não dei por um singelo
reparo da Oposição. Pelo menos daquela oposição, que
nunca foi governo e portanto, nunca ocupou o lugar de
”guardião” dos caixotes...
Os ”comentadores”, possivelmente preocupados com o peso da bola de futebol do Mundial, não se manifestaram. Nos blogues a coisa passou sem grande alarido, se é que existiu alguma menção ao assunto. O governador do Banco de Portugal não reviu o PIB nem sequer numa milésima. O Presidente da República não sugeriu a criação de mais nenhum provedor. Não se mencionou a remota possibilidade de uma comissão de inquérito. Mesmo daquelas que ninguém espera que conclua coisa alguma.
Ninguém veio clamar pelo dinheiro mal gasto dos nossos impostos. Ninguém pediu à Miss Marple que encontrasse os ”responsáveis” pela ”insignificância” de umas centenas de milhões de euros aplicados em caixotes. Vá lá, desta vez ninguém solicitou ao Procurador um inquérito célere.
Aspectos políticos à parte, concentremo-nos então nos aspectos mais teóricos de Gestão da coisa. Os mais conservadores poderão ver nesta situação uma linha de coerência no investimento público. Ao fim e ao cabo possuímos já uma óptima tradição de encaixotamento de estádios de futebol. Nalguns casos já ninguém quer saber do dito, e todos assobiam para o lado.
Os mais orientados para a teoria financeira poderão ver apenas uma sábia decisão, já que estávamos perante uma situação de ‘sink costs’, e, logo, o consumo de combustível, as despesas de manutenção e demais custos de exploração, afinal foram sabiamente evitadas.
Os mais optimistas do ponto de vista estratégico verão na coisa uma oportunidade de aprendizagem, uma vez que agora vamos vender os aviões no mercado de segunda mão de aviões de combate. Ora este mercado é altamente especializado e, previsivelmente, alguns funcionários adquirirão uma verdadeira qualificação no processo, o que sem dúvida aumentará a sua ”empregabilidade” futura. Num tempo de economia do conhecimento isto estará longe de ser despiciendo.
Surpreendentemente, os mais progressistas não vieram propor a criação de sinergias empreendedoras sob a forma de adaptação dos aviões para o combate aos fogos, ou quem sabe, a criação de uma empresa de turismo que permitisse a milionários texanos dar uma volta no aeródromo de Tires seguida de umas tacadas de golfe ou vice-versa.
Não sei se faremos doutrina desta situação. Mas, e uma vez que ninguém se manifestou escandalizado com este assunto, acho que devemos passar a chamar a coisa de Inovação, como aliás, será obrigatório no quadro do pensamento dominante. Sem hesitações, é compulsivo que procedamos à transferência deste exemplo de ”melhores práticas” para todos os sectores possíveis da nossa vida económica.
Neste sentido, parece-me um imperativo nacional que a PT compre uma grosa de gruas, que a EDP adquira com carácter urgente uns navios porta-contentores, que a TAP compre uma parte do deserto do Gobi, que os hospitais adquiram, eventualmente em ‘leasing’, um ou dois aparelhos de exploração submarina, que a Faculdade de Ciências Sociais financie dois projectos de medição da cintura de Van Allen, e por aí adiante.
Quem sabe, por efeitos da teoria da borboleta que bate asas onde bem entender e provoca uma tempestade cerebral na cabeça de um qualquer ministro, um dia possamos vir a resolver o problema das descargas de efluentes na Ribeira dos Milagres.
Para já, fiquemo-nos pelo desconstrucionismo surrealista, que é, na minha opinião, o fio condutor desta história e, com a esperança de que Portugal avance para os quartos de final...
Os ”comentadores”, possivelmente preocupados com o peso da bola de futebol do Mundial, não se manifestaram. Nos blogues a coisa passou sem grande alarido, se é que existiu alguma menção ao assunto. O governador do Banco de Portugal não reviu o PIB nem sequer numa milésima. O Presidente da República não sugeriu a criação de mais nenhum provedor. Não se mencionou a remota possibilidade de uma comissão de inquérito. Mesmo daquelas que ninguém espera que conclua coisa alguma.
Ninguém veio clamar pelo dinheiro mal gasto dos nossos impostos. Ninguém pediu à Miss Marple que encontrasse os ”responsáveis” pela ”insignificância” de umas centenas de milhões de euros aplicados em caixotes. Vá lá, desta vez ninguém solicitou ao Procurador um inquérito célere.
Aspectos políticos à parte, concentremo-nos então nos aspectos mais teóricos de Gestão da coisa. Os mais conservadores poderão ver nesta situação uma linha de coerência no investimento público. Ao fim e ao cabo possuímos já uma óptima tradição de encaixotamento de estádios de futebol. Nalguns casos já ninguém quer saber do dito, e todos assobiam para o lado.
Os mais orientados para a teoria financeira poderão ver apenas uma sábia decisão, já que estávamos perante uma situação de ‘sink costs’, e, logo, o consumo de combustível, as despesas de manutenção e demais custos de exploração, afinal foram sabiamente evitadas.
Os mais optimistas do ponto de vista estratégico verão na coisa uma oportunidade de aprendizagem, uma vez que agora vamos vender os aviões no mercado de segunda mão de aviões de combate. Ora este mercado é altamente especializado e, previsivelmente, alguns funcionários adquirirão uma verdadeira qualificação no processo, o que sem dúvida aumentará a sua ”empregabilidade” futura. Num tempo de economia do conhecimento isto estará longe de ser despiciendo.
Surpreendentemente, os mais progressistas não vieram propor a criação de sinergias empreendedoras sob a forma de adaptação dos aviões para o combate aos fogos, ou quem sabe, a criação de uma empresa de turismo que permitisse a milionários texanos dar uma volta no aeródromo de Tires seguida de umas tacadas de golfe ou vice-versa.
Não sei se faremos doutrina desta situação. Mas, e uma vez que ninguém se manifestou escandalizado com este assunto, acho que devemos passar a chamar a coisa de Inovação, como aliás, será obrigatório no quadro do pensamento dominante. Sem hesitações, é compulsivo que procedamos à transferência deste exemplo de ”melhores práticas” para todos os sectores possíveis da nossa vida económica.
Neste sentido, parece-me um imperativo nacional que a PT compre uma grosa de gruas, que a EDP adquira com carácter urgente uns navios porta-contentores, que a TAP compre uma parte do deserto do Gobi, que os hospitais adquiram, eventualmente em ‘leasing’, um ou dois aparelhos de exploração submarina, que a Faculdade de Ciências Sociais financie dois projectos de medição da cintura de Van Allen, e por aí adiante.
Quem sabe, por efeitos da teoria da borboleta que bate asas onde bem entender e provoca uma tempestade cerebral na cabeça de um qualquer ministro, um dia possamos vir a resolver o problema das descargas de efluentes na Ribeira dos Milagres.
Para já, fiquemo-nos pelo desconstrucionismo surrealista, que é, na minha opinião, o fio condutor desta história e, com a esperança de que Portugal avance para os quartos de final...
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