O choque tecnológico | Rui Grilo | idéias em série
O choque tecnológico
09/02/2007 20:55 Autor: Rui Grilo
No último ano e meio foram publicados dois livros que
deixaram marcas profundas porque identificaram novas
formas como a tecnologia está a mudar os hábitos de
um número cada vez maior de pessoas. Estou da falar
de ‘The Search’, de John Battelle, publicado entre
nós pela Casa das Letras, e de The Long Tail’, a obra
do editor da Wired, Chris Anderson, ainda sem edição
portuguesa que eu conheça. Nenhum desses livros se
deixa condensar numa frase nem num parágrafo, mas
exploram duas faces do mesmo fenómeno: a forma como
chegamos à informação que queremos está a mudar.
Battelle pegou no tema pelo lado da pesquisa e demonstrou como procurar na Internet se tornou na forma mais óbvia para chegarmos a alguma coisa que desejamos, seja informação, entretenimento, produtos ou serviços. Mais do que isso, o registo das palavras pesquisadas no Google e nos outros motores de pesquisa constitui uma preciosa ‘base de dados de intenções’, capaz de revelar os desejos e os interesses da uma parte significativa da nossa sociedade.
Chris Anderson, pelo seu lado, percebeu como essas mudanças estão a mudar o equilíbrio entre a oferta e a procura. Num mundo onde a possibilidade de escolha é cada vez maior, não estamos limitados aos filmes de sucesso garantido que passam nos cinemas perto de casa, nem nos temos que resignar à escolha limitada de livros, discos ou DVDs que encontramos nas lojas locais. A grande inovação da Amazon, da eBay ou da iTunes foi dar-nos acesso a um catálogo quase infinito de escolhas. No fim do ano passado, eu tinha duas objectivas antigas Leica para vender. Depois de enviar um email a bastantes amigos, percebi que não havia procura local para aqueles bens usados e relativamente caros. Coloquei-as à venda na eBay, onde foram vistas por centenas de interessados, acabando por ser vendidas uma para a Suécia e a outra para o Japão. O comércio global ficou ao alcance de qualquer um.
Mas esta mudança no acesso à informação não se limita ao mundo da Internet, está bem presente no nosso dia-a-dia numa organização. Naturalmente que essa mudança não se sente em fábricas ou em empresas mais pequenas, mas é cada vez mais evidente em todos os escritórios nos quais ter um computador ligado à Internet se tornou comum e indispensável. Nesse ambiente, as regras da gestão estão a mudar. A informação sobre o que se passa na empresa deixou de ser controlável a partir do topo, cada colaborador tem ao seu dispor cada vez mais fontes alternativas ao discurso oficial. Por SMS, trocando mensagens instantâneas num ‘messenger’ ou usando simplesmente o email, as redes de contacto escapam a qualquer controlo.
Eu vivi um pequeno episódio há algum tempo que ilustra perfeitamente este fenómeno. Ao assumir a direcção de um departamento numa empresa do sector tecnológico, o director-geral convocou uma reunião geral ao início do dia para me apresentar. A reunião foi curta e silenciosamente tensa, sem perguntas. Cada pessoa voltou à sua secretária e o amplo ‘open-space’ onde todos trabalhavam ficou silencioso. Só mais tarde percebi o que aconteceu realmente. Como todos usavam uma aplicação de ‘messenger’, assim que cada um voltou ao seu computador começou a falar electronicamente com os colegas. As perguntas reais surgiram aí. Quem é este tipo? O que vai acontecer ao anterior director? O que é que esta mudança significa? Com as respostas que obtiveram, mais um par de pesquisas na Internet pelo meu nome, ao fim da manhã cada um tinha toda a informação que queria. Discretamente, mas de forma eficaz.
Esta mudança real é facilmente ignorada pelos gestores. Todos parecem agir como se controlassem o que é dito no interior da empresa. Mas as empresas estão cada vez mais vivas, porque as pessoas que as compõem têm cada vez mais formas de interagir entre si. Isso significa que o que cada um faz localmente pode ser rapidamente do conhecimento de todos numa grande organização. A ‘conversa de corredor’ já não está limitada aos corredores físicos, porque toda a empresa se tornou num grande ‘corredor virtual’. Que podem os gestores fazer em relação a isto? Simplesmente, aceitar esta mudança, dando mais importância ao fazem e menos importância ao que dizem. Paradoxalmente, a tecnologia torna mais importantes as acções e as relações. Afinal, é aí que tudo se decide.
Battelle pegou no tema pelo lado da pesquisa e demonstrou como procurar na Internet se tornou na forma mais óbvia para chegarmos a alguma coisa que desejamos, seja informação, entretenimento, produtos ou serviços. Mais do que isso, o registo das palavras pesquisadas no Google e nos outros motores de pesquisa constitui uma preciosa ‘base de dados de intenções’, capaz de revelar os desejos e os interesses da uma parte significativa da nossa sociedade.
Chris Anderson, pelo seu lado, percebeu como essas mudanças estão a mudar o equilíbrio entre a oferta e a procura. Num mundo onde a possibilidade de escolha é cada vez maior, não estamos limitados aos filmes de sucesso garantido que passam nos cinemas perto de casa, nem nos temos que resignar à escolha limitada de livros, discos ou DVDs que encontramos nas lojas locais. A grande inovação da Amazon, da eBay ou da iTunes foi dar-nos acesso a um catálogo quase infinito de escolhas. No fim do ano passado, eu tinha duas objectivas antigas Leica para vender. Depois de enviar um email a bastantes amigos, percebi que não havia procura local para aqueles bens usados e relativamente caros. Coloquei-as à venda na eBay, onde foram vistas por centenas de interessados, acabando por ser vendidas uma para a Suécia e a outra para o Japão. O comércio global ficou ao alcance de qualquer um.
Mas esta mudança no acesso à informação não se limita ao mundo da Internet, está bem presente no nosso dia-a-dia numa organização. Naturalmente que essa mudança não se sente em fábricas ou em empresas mais pequenas, mas é cada vez mais evidente em todos os escritórios nos quais ter um computador ligado à Internet se tornou comum e indispensável. Nesse ambiente, as regras da gestão estão a mudar. A informação sobre o que se passa na empresa deixou de ser controlável a partir do topo, cada colaborador tem ao seu dispor cada vez mais fontes alternativas ao discurso oficial. Por SMS, trocando mensagens instantâneas num ‘messenger’ ou usando simplesmente o email, as redes de contacto escapam a qualquer controlo.
Eu vivi um pequeno episódio há algum tempo que ilustra perfeitamente este fenómeno. Ao assumir a direcção de um departamento numa empresa do sector tecnológico, o director-geral convocou uma reunião geral ao início do dia para me apresentar. A reunião foi curta e silenciosamente tensa, sem perguntas. Cada pessoa voltou à sua secretária e o amplo ‘open-space’ onde todos trabalhavam ficou silencioso. Só mais tarde percebi o que aconteceu realmente. Como todos usavam uma aplicação de ‘messenger’, assim que cada um voltou ao seu computador começou a falar electronicamente com os colegas. As perguntas reais surgiram aí. Quem é este tipo? O que vai acontecer ao anterior director? O que é que esta mudança significa? Com as respostas que obtiveram, mais um par de pesquisas na Internet pelo meu nome, ao fim da manhã cada um tinha toda a informação que queria. Discretamente, mas de forma eficaz.
Esta mudança real é facilmente ignorada pelos gestores. Todos parecem agir como se controlassem o que é dito no interior da empresa. Mas as empresas estão cada vez mais vivas, porque as pessoas que as compõem têm cada vez mais formas de interagir entre si. Isso significa que o que cada um faz localmente pode ser rapidamente do conhecimento de todos numa grande organização. A ‘conversa de corredor’ já não está limitada aos corredores físicos, porque toda a empresa se tornou num grande ‘corredor virtual’. Que podem os gestores fazer em relação a isto? Simplesmente, aceitar esta mudança, dando mais importância ao fazem e menos importância ao que dizem. Paradoxalmente, a tecnologia torna mais importantes as acções e as relações. Afinal, é aí que tudo se decide.
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