discutir a gestão

coluna de opinião no Diário Económico

Blogs e Twitter

Há hoje uma variedade enorme de meios de comunicação ‘online'. Os ‘blogs' e mais recentemente o Twitter tornam a relação entre as empresas e o exterior mais directa. É por isso mesmo que os gestores têm que evitar a todo o custo que os seus colaboradores utilizem estas tecnologias e castigar severamente os que já o façam. Senão correm o perigo de tornar o que se passa no seu escritório do conhecimento público e, terror dos terrores, diminuir o profundo défice democrático que existe nestes locais.

Os ‘blogs' têm sido uma fonte fértil de pequenos e grandes embaraços. Em 2003, um empregado da Microsoft revelou que a empresa comprava computadores da rival Apple. Em 2004, o congresso americano entrou em pânico quando uma estagiária relatou as suas aventuras extra-conjugais com alguns políticos de peso. Em 2006, um enviado especial das Nações Unidas para o Sudão criou uma crise diplomática por discutir as derrotas das tropas do governo no seu ‘blog' pessoal. Claro que todas estas organizações despediram cada um destes prevaricadores, não só para os calar como também para avisar outros empregados tentados a seguir o seu exemplo. O resultado parece ter sido positivo. Várias das pessoas que perderam o emprego pelo que escreveram online, usaram os seus ‘blogs' para mostrar arrependimento e sublinhar os perigos de uma presença na ‘blogosfera'. Nos Estados Unidos, ‘sites' como o Yahoo! HotJobs têm avisos semelhantes.

O Twitter é mais perigoso do que os ‘blogs' porque é em directo. No Twitter, cada utilizador tem uma página que actualiza com mensagens de 140 caracteres ou menos. Todos os dias são publicadas cerca de 250.000 mensagens no Twitter. Muitas relatam as experiências de colaboradores e clientes. Apesar de só ter sido criado em 2006 e permitir apenas mensagens muito curtas, o Twitter também já foi palco de pequenos grandes incidentes de relações públicas. Uma colaboradora de uma empresa de ‘software' demitiu-se e logo depois usou o Twitter para expôr o que considerava ser uma gestão "patética" e "repugnante". Em Janeiro deste ano, o director de uma agência de relações públicas teve que fazer um pedido de desculpas público depois de ter dito no Twitter que "morreria" se tivesse que viver na cidade em que está a sede da Federal Express, um dos maiores clientes da agência. A mensagem é clara - raciocínio crítico e transparência, nem pensar.

Portugal é também palco de vários episódios deste tipo. Na semana passada, José Sócrates perdeu a oportunidade de desferir um golpe retórico a Francisco Louçã por causa de uma mensagem que um dos seus assessores publicou no seu ‘blog' pessoal. O Twitter tem vários relatos ao vivo dos debates na Assembleia da República e até de reuniões mais restritas, que rivalizam em picardia e vivacidade com o futebol falado que ocupa demasiadas ondas de rádio nas tardes de fim-de-semana.

Em Portugal, a internet não é apenas uma fonte de problemas de relações públicas, também gera problemas de liderança e gestão. Mesmo antes de haver ‘blogs', um empregado de escritório de uma das maiores empresas nacionais utilizou um forum de discussão ‘online' criado dentro da sua empresa para protagonizar um movimento de resistência à mudança que durou quase dois anos. Na altura, os gestores da organização decidiram fechar o ‘site'. O resultado foi desastroso: os empregados criaram um espaço de discussão virtual num forum ‘online' aberto ao público em geral que não só teve consequências negativas para a imagem da empresa no exterior, como também para as relações internas entre colaboradores e chefias. A lição que esta organização aprendeu aplica-se a qualquer empresa que teime em seguir o caminho do progresso: o Twitter, os ‘blogs' e outras invenções semelhantes são uma fonte de democracia e abertura. O desafio dos gestores é manter este vírus bem longe porque, como o Estado Novo descobriu há quase 35 anos, quando uma pessoa é contagiada a doença espalha-se muito rapidamente.
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