discutir a gestão

coluna de opinião no Diário Económico

O fim dos crimes de colarinho branco

A melhor solução para os problemas éticos que têm assolado a economia global e os mercados financeiros que a sustentam é ensinar os lideres a esconder melhor as suas pequenas traquinices.

A verdade é que as empresas e a sua cotação na bolsa não sofrem com as malandrices cometidas por quem as comanda. Em muitos casos até beneficiam das travessuras feitas para proveito próprio ou em nome do sucesso, em mercados cada vez mais competitivos. O que de facto destrói valor e prejudica o bom funcionamento das instituições do capitalismo é a teimosia dos jornalistas e dos investigadores que têm trazido estes casos a público.

Há inúmeros casos que mostram que a falta de ética compensa, em especial quando é embrulhada num discurso de responsabilidade social e ambiental. Uma conhecida marca de automóveis, por exemplo, conseguiu tornar um dos seus carros num símbolo do movimento ambientalista. No entanto, um artigo no jornal da Universidade do Connecticut sugeriu que o processo de produção do tal carro ecológico tem um impacto muito negativo na Natureza. Mais ainda: de acordo com o Greenpeace esta empresa tem lutado activamente contra a legislação que visa limitar o consumo de gasolina. Isto tudo não a impede de promover os seus produtos como os melhores amigos dos coelhinhos e dos pinheirinhos.

Muitos dos líderes mais admirados e melhor sucedidos ao nível nacional e internacional parecem ter aprendido mais com “O Padrinho” e “Os Sopranos” do que com a Harvard Business Review. Alguns, orgulhosos, confessam-no nas suas biografias. O resto destes tiranetes são apenas denunciados nos intervalos para café, nos almoços fora da empresa e nas conversas depois do jantar, quando as crianças já se foram deitar. Por mais entristecido e amargo que seja o tom destas histórias, nenhuma acaba em desmotivação e fracasso. Ao contrário, todas incluem pequenos contos em que abundam níveis heróicos de empenho e sucessos que se entregam ao líder com o ar sobranceiro de um cachorrinho que conseguiu apanhar no ar o pau com que o dono o castiga.

Infelizmente, a ética está cada vez mais na moda. É um tema frequente na imprensa de negócios e até na imprensa desportiva: alguns pequenos empresários e alguns dirigentes desportivos, inocentes ou não, vieram juntar-se a Cliff Baxster da Enron e a Bernie Ebbers da Worldcom na lista de gestores mal comportados que envergonharam muitas organizações que nos habituamos a admirar. Os repórteres dos jornais de negócios e os agentes da polícia económica tornaram-se ‘paparazzis’ que procuram nos relatórios de contas sinais da mais pequena travessura. Sempre que são bem sucedidos, rebenta o escândalo e as acções da empresa visada dão um mergulho digno de uma medalha olímpica.

Se o comportamento não ético é bom para as empresas e para os seus líderes e só tem efeitos negativos na economia quando é descoberto, a solução é bastante simples. Os gestores que são incompetentes na subtil arte de esconder infracções às normas contabilísticas, fiscais e morais devem ser identificados e sistematicamente substituídos por outros que sejam mais competentes nesta tarefa. Não é um objectivo fácil, mas há razões para ser optimista: a imprensa e os tribunais têm sido uma ajuda preciosa. Por um lado têm vindo a afastar os mais incompetentes, envergonhando-os nas primeira páginas dos jornais e, ocasionalmente, condenando-os a uma estadia em regime de pensão completa num dos estabelecimentos prisionais que albergam outros criminosos. Por outro lado, criam pressão nos que ficam para melhorar métodos e desenvolver capacidades de camuflagem que evitem estes castigos. Ainda bem, porque como qualquer aspirante a aprendiz de ajudante de gestor descobre rapidamente, só não há mais surpresas desagradáveis em relação à ética nos negócios porque ainda há muita competência de ocultação nas empresas espalhadas por esse mundo fora. Todos temos umas Enron no portfolio, mas desde que nós e os outros permaneçamos na ignorância, os nossos investimentos estão bem e recomendam-se.
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