discutir a gestão

coluna de opinião no Diário Económico

Caracas Fútbol Club

Todo o aspirante a líder devia ser sócio do Caracas Fútbol Club.

Há poucos anos atrás, uma das revistas nacionais de gestão publicou um artigo sobre os gestores de topo das maiores empresas a operar em Portugal. No fim havia um quadro resumo em que, entre outras coisas, os entrevistados revelam as suas leituras habituais. Havia muitos adeptos da Harvard Business Review, mas o lider da subidiária de uma multinacional de sistemas de informação confessou que lia a Bola.

Outro dia, um antigo colega que é vendedor de produtos de grande consumo contou-me que o chefe o incentivou a “perceber de futebol” se queria melhorar a sua relação com os clientes e com as pessoas que podiam de facto fazer algo pela sua ascenção profissional.

Estes dois exemplos apontam para dois dos principais efeitos que o futebol tem no dia-a-dia dos gestores e sustentam o meu argumento: ser sócio do Caracas Fútbol Club é benéfico para qualquer pessoa com ambições de carreira.

Em primeiro lugar, a simpatia por um clube pode criar cooperação (ou a sua ausência) de forma instantânea. As pessoas confiam mais nas outras com quem têm algo em comum do que naquelas com quem partilham pouco ou nada. Quanto mais importante é o que têm em comum, maior é a boa vontade que têm uma com a outra. Um português tem menos disponibilidade para ajudar outro português quando estão os dois na Baixa Pombalina do que quando estão os dois em Reikjavik. Na primeira situação a nacionalidade é relativamente pouco importante para cada um. Na segunda situação já não é assim. Se ser salgueirista fôr muito importante para um chefe, é mais provável que ele ajude outro salgueirista do que um portista. No entanto, esta relação entre afiliação clubística e confiança pode funcionar ao contrário. Diz um amigo meu sportinguista que um bom adepto deste clube é primeiro anti-benfiquista e só depois é que é pró-sporting. Não só é pouco provável que este leão ajude um fã das águias como é bem possível que faça o que puder para o prejudicar. Apoiar uma equipa é como jogar roleta russa. Com sorte, o chefe (ou o cliente) é do mesmo clube. Com azar não só apoia outra equipa como detesta todas as restantes. A solução para minimizar este risco, para quem é aficionado do desporto rei e mesmo para quem dele desdenha, é proclamar-se membro da claque do Caracas Fútbol Club – não se beneficia de favores com base na mesma simpatia clubística, mas também não se é parte de nenhum grupo especialmente odiado por clientes ou superiores hierárquicos.

Em segundo lugar, o futebol é uma oportunidade para estabelecer laços informais – daí o conselho recebido pelo meu colega vendedor. Qualquer negociação tem momentos em que as várias partes sentadas à volta da mesa de discussão se levantam para tomar café ou almoçar. Estas pausas são oportunidades muito importantes para estabelecer a reciprocidade pessoal que pode depois ser usada como vantagem quando os trabalhos forem retomados. No entanto este jogo de influências tem que ser feito de forma subtil, nas entrelinhas entre um tema e outro. O futebol é um assunto de conversa especialmente acolhedor para este tipo de tácticas e manobras. Há um conhecimento partilhado relativamente vasto em relação ao tema, há novos assuntos de conversa todas a semanas e há até a possibilidade de invocar os jogos como experiências comuns: “lembra-se daquela vez que quase chegamos à final?...”

Ser adepto do Caracas Fútbol Club permite aproveitar as oportunidades criadas pelo futebol, minimizando riscos. Um clube exótico num país do terceiro mundo só pode despertar a curiosidade dos interlocutores, que ficarão ansiosos por conhecer as peripécias de uma equipa que joga na América Latina. Com apenas três outros clubes na Liga Venezolana, é fácil conhecer os jogadores e os resultados, facilitando a vida a quem verdadeiramente não gosta de futebol, mas quer uma carreira.

É que saber falar de futebol é muitas vezes o que distingue os chefes indigitados por quem é influente dos verdadeiros líderes.
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