Que podemos aprender com esta crise?
17/10/2008 19:46 Autor: Rui Grilo
Há várias semanas que a crise financeira ocupa as
primeiras páginas dos jornais e tem lugar cativo no
alinhamento da informação televisiva. Ninguém tem
hoje dúvidas do seu profundo impacto económico,
social e político. Mas há uma questão central que
tem passado ao lado da maior parte das análises:
que aprendemos nós realmente com esta crise?
Quando um evento inesperado tem um impacto desta magnitude, parece óbvio que nos esforçaremos por aprender a evitar que se repita. Quando os ataques terroristas de 11 de Setembro de 2001 apanharam o mundo de surpresa, a aprendizagem óbvia foi tomar medidas para evitar que terroristas se apoderem do ‘cockpit’ de um avião para o usarem como míssil. É uma aprendizagem lógica mas largamente ineficaz porque os terroristas, ao terem essa informação, não pensariam em repetir a mesma estratégia. Foi o que aconteceu, de forma trágica, com os atentados de 11 de Março de 2004 em Madrid…
Da mesma forma, a Grande Guerra de 1914-18 foi designada, pela tragédia humana que representou, a “guerra para acabar com todas as guerras”. E como é os líderes políticos da altura tentaram fazer isso? Criando mecanismos defensivos políticos e militares, como a célebre “Linha Maginot” ao longo da fronteira da França com a Alemanha e a Itália, para impedirem um novo ataque. O problema é que essas defesas impediriam uma invasão, mas só se o atacante repetisse exactamente a mesma estratégia. Mais uma vez, em 1940 bastou ao exército alemão contornar a linha Maginot pela floresta das Ardenas para invadir facilmente a França...
Com a crise financeira arriscamo-nos a repetir o mesmo padrão. A aprendizagem óbvia parece ser que o mercado é mau, os bancos são “gananciosos” e que é precisa uma mão mais forte do Estado. Parece óbvio, mas é perigoso. Aliás, a aprendizagem é tão ineficaz que esta crise do “sub-prime” parece repetir o padrão da crise do mercado imobiliário americano de 1990-91. Basta lembrar que essa crise custou 160 mil milhões de dólares, 78% dos quais saíram dos bolsos dos contribuintes americanos… É razoável aceitar um fenómeno semelhante menos de duas décadas depois?
A chave pode ser perceber o que estes fenómenos têm em comum. A crise financeira actual e a dos anos 90, os ataques terroristas de 11 de Setembro e de 11 de Março e as duas guerras mundiais são acontecimentos altamente improváveis, de enorme impacto e impossíveis de prever antecipadamente. Contudo, olhando retrospectivamente, qualquer um desses acontecimentos nos parece hoje perfeitamente explicável e quase “lógico”. Nassim Nicholas Taleb chamou-lhes “Cisnes Negros” no seu livro com o mesmo título, editado originalmente no ano passado e publicado entre nós pela Dom Quixote já este ano.
Os “Cisnes Negros” são familiares para quem conhece as ciências da complexidade e representam uma ideia próxima do “efeito borboleta”, a noção de que grandes efeitos imprevisíveis podem resultar de pequenas causas. É hoje perfeitamente claro que a interacção e a interdependência dos agentes económicos em todo o mundo gera dinâmicas complexas e, por isso, imprevisíveis. São comportamentos agregados que não se acomodam às equações e aos modelos simplistas que a maior parte dos economistas ainda usa. O que Taleb acrescenta é a forma como nós todos somos treinados para ignorar este tipo de fenómenos extraordinários e reduzi-los à normalidade. Se algo inesperado acontece, tentamos reduzir a nossa ansiedade garantindo que algo exactamente igual não se pode repetir. O resultado: acontece algo parecido mas igualmente grave.
No mundo da gestão, esta cegueira face aos “cisnes negros” é particularmente perigosa. A cultura única que se instalou, exigindo todos os trimestres indicadores quantitativos para medir o sucesso e definir os bónus dos gestores, ajuda muito a tornar possível (e mesmo provável) a repetição destes fenómenos. Num mundo onde o que conta são os objectivos de EBITDA, resultados líquidos ou “free cash flow”, há pouco espaço para fazer o que é certo a longo prazo e há demasiada pressão para se fazer o que mexe imediatamente nesses indicadores. Quem perde com esta cultura? Ironicamente, perderá primeiro quem a exige, os investidores, mas a seguir perdemos todos, através dos nossos impostos ou do fundo de pensões…
Quando um evento inesperado tem um impacto desta magnitude, parece óbvio que nos esforçaremos por aprender a evitar que se repita. Quando os ataques terroristas de 11 de Setembro de 2001 apanharam o mundo de surpresa, a aprendizagem óbvia foi tomar medidas para evitar que terroristas se apoderem do ‘cockpit’ de um avião para o usarem como míssil. É uma aprendizagem lógica mas largamente ineficaz porque os terroristas, ao terem essa informação, não pensariam em repetir a mesma estratégia. Foi o que aconteceu, de forma trágica, com os atentados de 11 de Março de 2004 em Madrid…
Da mesma forma, a Grande Guerra de 1914-18 foi designada, pela tragédia humana que representou, a “guerra para acabar com todas as guerras”. E como é os líderes políticos da altura tentaram fazer isso? Criando mecanismos defensivos políticos e militares, como a célebre “Linha Maginot” ao longo da fronteira da França com a Alemanha e a Itália, para impedirem um novo ataque. O problema é que essas defesas impediriam uma invasão, mas só se o atacante repetisse exactamente a mesma estratégia. Mais uma vez, em 1940 bastou ao exército alemão contornar a linha Maginot pela floresta das Ardenas para invadir facilmente a França...
Com a crise financeira arriscamo-nos a repetir o mesmo padrão. A aprendizagem óbvia parece ser que o mercado é mau, os bancos são “gananciosos” e que é precisa uma mão mais forte do Estado. Parece óbvio, mas é perigoso. Aliás, a aprendizagem é tão ineficaz que esta crise do “sub-prime” parece repetir o padrão da crise do mercado imobiliário americano de 1990-91. Basta lembrar que essa crise custou 160 mil milhões de dólares, 78% dos quais saíram dos bolsos dos contribuintes americanos… É razoável aceitar um fenómeno semelhante menos de duas décadas depois?
A chave pode ser perceber o que estes fenómenos têm em comum. A crise financeira actual e a dos anos 90, os ataques terroristas de 11 de Setembro e de 11 de Março e as duas guerras mundiais são acontecimentos altamente improváveis, de enorme impacto e impossíveis de prever antecipadamente. Contudo, olhando retrospectivamente, qualquer um desses acontecimentos nos parece hoje perfeitamente explicável e quase “lógico”. Nassim Nicholas Taleb chamou-lhes “Cisnes Negros” no seu livro com o mesmo título, editado originalmente no ano passado e publicado entre nós pela Dom Quixote já este ano.
Os “Cisnes Negros” são familiares para quem conhece as ciências da complexidade e representam uma ideia próxima do “efeito borboleta”, a noção de que grandes efeitos imprevisíveis podem resultar de pequenas causas. É hoje perfeitamente claro que a interacção e a interdependência dos agentes económicos em todo o mundo gera dinâmicas complexas e, por isso, imprevisíveis. São comportamentos agregados que não se acomodam às equações e aos modelos simplistas que a maior parte dos economistas ainda usa. O que Taleb acrescenta é a forma como nós todos somos treinados para ignorar este tipo de fenómenos extraordinários e reduzi-los à normalidade. Se algo inesperado acontece, tentamos reduzir a nossa ansiedade garantindo que algo exactamente igual não se pode repetir. O resultado: acontece algo parecido mas igualmente grave.
No mundo da gestão, esta cegueira face aos “cisnes negros” é particularmente perigosa. A cultura única que se instalou, exigindo todos os trimestres indicadores quantitativos para medir o sucesso e definir os bónus dos gestores, ajuda muito a tornar possível (e mesmo provável) a repetição destes fenómenos. Num mundo onde o que conta são os objectivos de EBITDA, resultados líquidos ou “free cash flow”, há pouco espaço para fazer o que é certo a longo prazo e há demasiada pressão para se fazer o que mexe imediatamente nesses indicadores. Quem perde com esta cultura? Ironicamente, perderá primeiro quem a exige, os investidores, mas a seguir perdemos todos, através dos nossos impostos ou do fundo de pensões…
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