Em que tabuleiro quer jogar? | José Manuel Fonseca |
idéias em série
Em que tabuleiro quer jogar?
17/03/2006 20:44 Autor: José Manuel
Fonseca
A inovação é apresentada, ultimamente com carácter
obsessivo, como solução para os problemas
empresariais, sectoriais e do país. E, talvez até
pela simpatia do Primeiro Ministro pela Finlândia,
facilmente se torna sinónimo de alta tecnologia, de
avanços na física, de produtos complexíssimos de
engenharia, de curas com base em extraordinários
avanços na genética. Constitui, aparentemente a porta
única para uma economia baseada no conhecimento e na
tecnologia, porta que nos deveremos apressar a
franquear sob pena que se feche para todo o sempre...
E, de facto, parece inequívoco que a economia mudou. Passámos, ou estamos em passagem, de uma economia de transformação e de troca de matérias e energias para uma economia de criação e partilha de informação e de conhecimento. De uma economia de manufactura para uma economia de serviços. De coisas para ideias. De uma economia assente em relações lineares estáveis, aditivas, mensuráveis, para uma economia em que frequentemente nem sequer sonhamos que variáveis poderemos encontrar pelo caminho tão incerto ele nos parece. De uma economia em que dobrar a produção significava montar uma nova linha de montagem em paralelo com a existente, para uma economia em que triplicar a facturação pode significar, tão somente, obter uma superior capacidade de tratamento de informação, ou num qualquer privilégio de acesso a dados que suportem decisões novas, reconfigurando o que fazíamos mas sem novos custos. De uma economia para a qual acumulámos, durante quase cinco séculos de ciência positiva, escalas para medir as causas e os efeitos, para uma economia, em que temos milhares de escalas para medir coisas que são, no mínimo, difíceis de mensurar como as emoções, as motivações, os compromissos de empenho dos colaboradores e as percepções dos consumidores. De uma economia assente na previsão pela repetição do passado, para uma economia em que existem rendimentos crescentes, de monopólios de facto baseados em espirais de sucesso, acompanhadas da emergência de nós incontornáveis na paisagem competitiva, como por exemplo o Windows. Uma economia em que o conhecimento aparece como a “matéria prima”, como o processo de “transformação” e como o produto final. Uma economia em que os investimentos são já, segundo a OCDE, maioritariamente incorpóreos, em investigação e desenvolvimento, em comunicação e marketing, em formação, e não tanto em maquinaria e edifícios.
Entre nós, parece no entanto existir algum equívoco entre a crescente imaterialidade das relações económicas evidenciada pela quase hegemonia dos serviços na estrutura do PIB das economias avançadas e uma economia baseada no conhecimento. Por vezes, confundimos o sonho da “Califórnia” dos bens transaccionáveis, como por exemplo software de jogos para consolas, actividade para a qual necessitamos de recursos muito qualificados, e a oferta de serviços que se esgotam no acto simultâneo de criação e de consumo. Serviços, que são de baixo valor acrescentado, que geram empregos temporários para populações pouco qualificadas, como parecem defender os entusiastas da denominada “economia dos eventos”.
Contudo, entre o país dos eventos e o país da ficção científica, existe o país real. E a Inovação aplicasse-lhe magnificamente. Há aliás muitos exemplos de inovação de sucesso, sem que tenhamos de pensar em produtos sofisticadíssimos ou em buscarmos todos uma especialização como transportadores de tacos de golfe... E, embora não exista míngua de exemplos em áreas tecnológicas de alto valor acrescentado, que com ou sem planos tecnológicos teimam em aparecer, convido o leitor a olhar para os exemplos de inovações menos espectaculares mas que revelam outros caminhos possíveis. Por exemplo, a Cerne. Uma empresa de mobiliário, portanto de um sector tradicional, maduro, em que segundo meritórios teóricos, mesmo do MIT (*), veja-se bem, as inovações deveriam ser incrementais e sobretudo de processo de fabrico, centradas na eficiência. Ou seja fabricar a custos mais reduzidos. O que terá passado pela cabeça dos empresários da Cerne para decidirem, já há alguns anos, reescrever as regras do jogo? Criar um tabuleiro novo para jogar um jogo diferente? Existirá melhor inovação que esta?
(*) ver por exemplo as obras de Abernathy e Utterback os mais respeitados teóricos do MIT sobre inovação (Patterns of Industrial Innovation, Technology Review vol 80 nº7 (40-47) 1978)
E, de facto, parece inequívoco que a economia mudou. Passámos, ou estamos em passagem, de uma economia de transformação e de troca de matérias e energias para uma economia de criação e partilha de informação e de conhecimento. De uma economia de manufactura para uma economia de serviços. De coisas para ideias. De uma economia assente em relações lineares estáveis, aditivas, mensuráveis, para uma economia em que frequentemente nem sequer sonhamos que variáveis poderemos encontrar pelo caminho tão incerto ele nos parece. De uma economia em que dobrar a produção significava montar uma nova linha de montagem em paralelo com a existente, para uma economia em que triplicar a facturação pode significar, tão somente, obter uma superior capacidade de tratamento de informação, ou num qualquer privilégio de acesso a dados que suportem decisões novas, reconfigurando o que fazíamos mas sem novos custos. De uma economia para a qual acumulámos, durante quase cinco séculos de ciência positiva, escalas para medir as causas e os efeitos, para uma economia, em que temos milhares de escalas para medir coisas que são, no mínimo, difíceis de mensurar como as emoções, as motivações, os compromissos de empenho dos colaboradores e as percepções dos consumidores. De uma economia assente na previsão pela repetição do passado, para uma economia em que existem rendimentos crescentes, de monopólios de facto baseados em espirais de sucesso, acompanhadas da emergência de nós incontornáveis na paisagem competitiva, como por exemplo o Windows. Uma economia em que o conhecimento aparece como a “matéria prima”, como o processo de “transformação” e como o produto final. Uma economia em que os investimentos são já, segundo a OCDE, maioritariamente incorpóreos, em investigação e desenvolvimento, em comunicação e marketing, em formação, e não tanto em maquinaria e edifícios.
Entre nós, parece no entanto existir algum equívoco entre a crescente imaterialidade das relações económicas evidenciada pela quase hegemonia dos serviços na estrutura do PIB das economias avançadas e uma economia baseada no conhecimento. Por vezes, confundimos o sonho da “Califórnia” dos bens transaccionáveis, como por exemplo software de jogos para consolas, actividade para a qual necessitamos de recursos muito qualificados, e a oferta de serviços que se esgotam no acto simultâneo de criação e de consumo. Serviços, que são de baixo valor acrescentado, que geram empregos temporários para populações pouco qualificadas, como parecem defender os entusiastas da denominada “economia dos eventos”.
Contudo, entre o país dos eventos e o país da ficção científica, existe o país real. E a Inovação aplicasse-lhe magnificamente. Há aliás muitos exemplos de inovação de sucesso, sem que tenhamos de pensar em produtos sofisticadíssimos ou em buscarmos todos uma especialização como transportadores de tacos de golfe... E, embora não exista míngua de exemplos em áreas tecnológicas de alto valor acrescentado, que com ou sem planos tecnológicos teimam em aparecer, convido o leitor a olhar para os exemplos de inovações menos espectaculares mas que revelam outros caminhos possíveis. Por exemplo, a Cerne. Uma empresa de mobiliário, portanto de um sector tradicional, maduro, em que segundo meritórios teóricos, mesmo do MIT (*), veja-se bem, as inovações deveriam ser incrementais e sobretudo de processo de fabrico, centradas na eficiência. Ou seja fabricar a custos mais reduzidos. O que terá passado pela cabeça dos empresários da Cerne para decidirem, já há alguns anos, reescrever as regras do jogo? Criar um tabuleiro novo para jogar um jogo diferente? Existirá melhor inovação que esta?
(*) ver por exemplo as obras de Abernathy e Utterback os mais respeitados teóricos do MIT sobre inovação (Patterns of Industrial Innovation, Technology Review vol 80 nº7 (40-47) 1978)
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