discutir a gestão

coluna de opinião no Diário Económico

Equipas? Não, obrigado!

As equipas estão na moda. Os livrinhos de gestão que se encontram nas tabacarias dos aeroportos não se cansam de elogiar as vantagens de atribuir tarefas a um grupo, em vez de as entregar a um só colaborador. Muitos manuais de recursos humanos têm um capítulo inteiro apenas dedicado a este assunto. Mais surpreendente ainda, um estudo recente sobre os códigos éticos aponta para que 43% das empresas inclua o trabalho em equipa como um princípio orientador.

É impossível não ficar de boca aberta ao contrastar a popularidade desta forma de organização do trabalho com os resultados desastrosos que os grupos tem tido ao longo da História. A invasão da Baía dos Porcos, a Guerra do Vietname, a explosão do vaivém Challenger em 1986 com uma professora primária a bordo e, mais recentemente a Guerra no Iraque, são apenas alguns dos muitos exemplos. Há vários casos de empresas que sofreram a mesma sorte: os escândalos da Enron e da WorldCom e a turbulência interna na Galp Energia durante a fusão entre a Gás de Portugal e a Petrogal são alguns dos mais conhecidos.

Jerry Harvey explica as dificuldades do trabalho em equipa através de uma pequena história intitulada o Paradoxo de Abilene. Parafraseando-o, a narrativa começas numa quente tarde de verão numa pequena cidade rural do Texas. Um casal, Pedro e Maria, estavam de visita aos pais desta. Ao princípio da tarde o sogro de Pedro pensando que a sua família estava entediada de não ter nada para fazer a não ser jogar dominó sugeriu um jantar em Abilene, uma cidade a 75 quilómetros de sua casa. Na verdade não queria ir, mas estaria disposto a fazê-lo se os outros assim o quisessem. Perguntou ao genro se queria ir jantar à cidade. A resposta foi imediatamente positiva, apesar de Pedro ter esperança que nem a mulher nem a sogra quisessem ir. Ele não tinha a mínima vontade de ir a Abilene sob o quente sol do Texas. Para sua surpresa, Maria e a sua mãe concordaram em ir, apesar de cada uma secretamente pensar para si própria que só ia para fazer a vontade aos outros. Ao jantar, em frente a um hamburguer que estava longe da confecção ‘gourmet’ de uma qualquer cadeia de fast-food, Pedro queixou-se que não tinha tido vontade nenhuma de sair da quinta dos sogros e que só tinha vindo para fazer a vontade aos outros. Este desabafo foi seguido de confissões semelhantes por parte de Maria e de seus pais. Foi então que perceberam que tinham concordado em conjunto fazer uma viagem de 75 quilómetros que nenhum deles desejava individualmente.

Este e outros fenómenos com consequências embaraçosas para o processo de tomada de decisão acontecem frequentemente nas equipas. Resultam do empenho de cada um dos membros com o grupo a que pertencem. A sua identificação com os colegas e sua vontade de serem aceites pelo colectivo leva-os a não exprimir as suas opiniões e a fazer aquilo que pensam que a equipa espera deles. As estratégias e decisões do grupo não são questionadas e, pior ainda, alguns dos seus membros assumem a função de protectores da harmonia geral. A sua tarefa é ocultar todas as possíveis fontes de desacordo e manter afastados todos os dados que questionem o percurso que está a ser seguido.

Há várias soluções para lidar com estas disfunções das equipas mas todas têm custos para o seu desempenho. Aumentar a diversidade dos membros limita a partilha de valores e crenças comuns e por isso torna o processo de tomada de decisão mais demorado, mais propício a conflitos e eventualmente menos criativo. Atribuir a um dos membros do grupo o papel de advogado do diabo exclui a sua contribuição, aumenta a possibilidade de tensões internas e também diminui e eficiência do processo de tomada de decisão.

Em ‘Gerindo no Caos’, Tom Peters sugeriu que as empresas deviam usar equipas sempre que possível. A investigação e a história da gestão sugerem exactamente o contrário. Os grupos são péssimos contextos de tomada de decisão. Só devem ser usados quando não houver alternativa.
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