Estivalidades
28/07/2009 15:32 Autor: José Manuel
Fonseca
Periodicamente vou avaliar a minha situação de
saúde. Um curioso hábito que sobreveio da maçada de
um enfarte e de uns re-arranjos nas coronárias que
implicaram ser serrado ao meio. Aconselho vivamente
que evitem. E, depois de casa assaltada trancas à
porta...
Portanto, agora, tenho acesso privilegiado a um mundo fascinante de descententes anteriores e acinesias da parede anterior, que implicam exames acima do vulgar electro cardiograma. Tudo para ver se me mantenho na classe 1, que é a classe de vossas excelências que são sedentários, colesterol elevado, umas cigarradas, e têm, ainda, a ilusão de que nada vos pode acontecer. Ora no quadro destas avaliações "estratégicas e estruturantes", vou agora fazer um sofisticado TAC que permitirá uma imagem tridimensional do que me foi instalado de origem.
A marcação do exame é fácil até porque como, simpaticamente, me foi dado a conhecer não há acordos com a Segurança Social, nem com a ADSE, nem com nenhum seguro de saúde. Só há acordos com particulares, disse-me a voz do outro lado do telefone. Acordos com particulares. Curiosa expressão. Um acordo com a minha conta bancária. Alas. Uma pessoa aprende todos os dias. Portanto, naquela instituição de saúde privada, para fazer o exame através daquele médico, por pedido expresso do meu cardiologista, suponho que por o colega ser recomendável, se não tiver dinheiro, não há exame. Nem seguro de saúde que me valha. E o exame é bastante em conta. Quase o que ganha por mês um operador de ‘call center' daqueles catitas criados para dar emprego "qualificante".
É útil ficarmos a saber o que nos espera. Pela Segurança Social poderemos fazer o exame após a autopsia. Pela ADSE uns meses antes da dita. Pelo seguro de saúde está fora de questão que quando chegar a necessidade de exames desses já, amavelmente, nos remeteram para a caridade pública que já damos prejuízo, e não há reserva matemática que aguente, e o negócio não é por certo o do ‘cash outflow'.
Aguentemo-nos portanto. Pelo menos aqueles que podem.
Entretanto, nem tudo são más noticias. Podemos sempre assistir a uma guerra larvar entre o senhor bastonário da ordem dos médicos e o senhor farmacêutico-mor do reino. É uma guerra divertida. Tem imensa graça. Eu agora não me recordo bem do nome. Mas parece que nós temos tido ministros e ministras nesta área. Aqui há uns tempos mostraram-me um documento onde alguém do ministério expressava a preocupação com a baixa taxa de marcação de consultas no centro de saúde através da internet. Era num daqueles concelhos do interior do Alentejo onde a população já só aguarda pacientemente.
Também tenho em curso uma desavença com uma instituição de ensino onde leccionei. No ano passado apresentei o diferendo em tribunal.
Parece que tenho a expectativa de uma audiência daqui a um ou dois anos, com sorte. Segundo me disseram. Coisa fascinante a sorte. Mormente no contexto em apreço. Também acho imensa graça a esta coisa da sorte que não consta do manual. Parece que temos, igualmente, tido ministros nesta área. E sindicatos.
Noutra área do fogo, o meu filho mais velho, premiado pelo diploma de "amor à escola", quis este ano escolher alemão como segunda língua. No ministério afirmam que pode optar por francês, alemão e espanhol. Afinal na Secundária de Carcavelos pode optar por francês ou francês e quem sabe... francês.
Acho bem. Perante tudo isto o senhor ministro especializado em assuntos tauromáquicos foi de férias. E, deve ser do Verão e das férias, sinto crescer em mim um entusiasmo enorme pelas eleições que se avizinham. E expectativas de mudança. Exulto mesmo na antecipação do acto cívico. E bocejo outra vez. Animado com a intemporalidade deste artigo que escrevi.
Portanto, agora, tenho acesso privilegiado a um mundo fascinante de descententes anteriores e acinesias da parede anterior, que implicam exames acima do vulgar electro cardiograma. Tudo para ver se me mantenho na classe 1, que é a classe de vossas excelências que são sedentários, colesterol elevado, umas cigarradas, e têm, ainda, a ilusão de que nada vos pode acontecer. Ora no quadro destas avaliações "estratégicas e estruturantes", vou agora fazer um sofisticado TAC que permitirá uma imagem tridimensional do que me foi instalado de origem.
A marcação do exame é fácil até porque como, simpaticamente, me foi dado a conhecer não há acordos com a Segurança Social, nem com a ADSE, nem com nenhum seguro de saúde. Só há acordos com particulares, disse-me a voz do outro lado do telefone. Acordos com particulares. Curiosa expressão. Um acordo com a minha conta bancária. Alas. Uma pessoa aprende todos os dias. Portanto, naquela instituição de saúde privada, para fazer o exame através daquele médico, por pedido expresso do meu cardiologista, suponho que por o colega ser recomendável, se não tiver dinheiro, não há exame. Nem seguro de saúde que me valha. E o exame é bastante em conta. Quase o que ganha por mês um operador de ‘call center' daqueles catitas criados para dar emprego "qualificante".
É útil ficarmos a saber o que nos espera. Pela Segurança Social poderemos fazer o exame após a autopsia. Pela ADSE uns meses antes da dita. Pelo seguro de saúde está fora de questão que quando chegar a necessidade de exames desses já, amavelmente, nos remeteram para a caridade pública que já damos prejuízo, e não há reserva matemática que aguente, e o negócio não é por certo o do ‘cash outflow'.
Aguentemo-nos portanto. Pelo menos aqueles que podem.
Entretanto, nem tudo são más noticias. Podemos sempre assistir a uma guerra larvar entre o senhor bastonário da ordem dos médicos e o senhor farmacêutico-mor do reino. É uma guerra divertida. Tem imensa graça. Eu agora não me recordo bem do nome. Mas parece que nós temos tido ministros e ministras nesta área. Aqui há uns tempos mostraram-me um documento onde alguém do ministério expressava a preocupação com a baixa taxa de marcação de consultas no centro de saúde através da internet. Era num daqueles concelhos do interior do Alentejo onde a população já só aguarda pacientemente.
Também tenho em curso uma desavença com uma instituição de ensino onde leccionei. No ano passado apresentei o diferendo em tribunal.
Parece que tenho a expectativa de uma audiência daqui a um ou dois anos, com sorte. Segundo me disseram. Coisa fascinante a sorte. Mormente no contexto em apreço. Também acho imensa graça a esta coisa da sorte que não consta do manual. Parece que temos, igualmente, tido ministros nesta área. E sindicatos.
Noutra área do fogo, o meu filho mais velho, premiado pelo diploma de "amor à escola", quis este ano escolher alemão como segunda língua. No ministério afirmam que pode optar por francês, alemão e espanhol. Afinal na Secundária de Carcavelos pode optar por francês ou francês e quem sabe... francês.
Acho bem. Perante tudo isto o senhor ministro especializado em assuntos tauromáquicos foi de férias. E, deve ser do Verão e das férias, sinto crescer em mim um entusiasmo enorme pelas eleições que se avizinham. E expectativas de mudança. Exulto mesmo na antecipação do acto cívico. E bocejo outra vez. Animado com a intemporalidade deste artigo que escrevi.
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