discutir a gestão

coluna de opinião no Diário Económico

O monarca

Poucos acreditam que as empresas são meritocracias ou democracias. Mas se não são nem uma coisa nem outra, então o que são?

São monarquias.

Neste regime a chefia é ocupada por pessoas que integram um grupo que se distingue de todos os outros não só pela côr do seu sangue como também pela forma ritual e simbólica com que os seus membros se relacionam com os outros.

Na minha experiência, os executivos de topo são de facto uma classe especial distinta do comum dos mortais. Em geral, quando tenho reuniões de trabalho com gestores intermédios, sou anunciado por um recepcionista que me leva directamente ao gabinete da pessoa com quem tenho encontro marcado.

Quando a reunião é com alguém do conselho de administração, o recepcionista leva-me a outro recepcionista que por sua vez me apresenta à secretária da administração. Esta última está de guarda a uma zona reservada do edifício com uma decoração muito mais luxuosa do que o resto da área de trabalho. Assim que a minha autorização para me encontrar pessoalmente com o líder é verificada, sou conduzido a uma sala de espera onde tenho oportunidade de contemplar a minha sorte em ser recebido por quem detêm tanto poder. Finalmente sou chamado de novo pela secretária para ser conduzido e apresentado ao administrador. A reunião é numa sala à parte, já que a zona de trabalho do líder não pode ser conspurcada pela presença de alguém que não faz parte da aristocracia local.

Nas empresas onde vigora a monarquia, a política de recursos humanos tem que ter em conta a condição especial do monarca e daqueles que fazem parte da côrte. No escritório português de uma multinacional de produtos de grande consumo, um gestor de recursos humanos imprudente fez uma alteração à politica de atribuição de automóveis que permitia poupar muito dinheiro à empresa ao mesmo tempo que dava aos vendedores e aos seus directores a oportunidade de te carros melhores que aqueles a que tinham acesso. O contrato de leasing do carro de um vendedor chegou ao fim dois meses antes do fim do leasing do carro do director comercial. O vendedor decidiu comprar um Audi A4 com um motor de 1.9 litros igual ao que o director comercial iria ter por mais dois meses, com uma pequena diferença: o carro do director tinha um motor de 1.8 litros. Isto numa monarquia é inadmissível – além do carro do vendedor e o do seu líder serem iguais por fora, o plebeu tinha tido a insolência de ultrapassar a capacidade cúbica do motor da viatura real em 100 cm3. Resultado: o novo contrato foi revogado, sendo reinstaurado o anterior que custava mais à empresa e que não permitiria nem aos vendedores nem ao seu director beneficiar de carros melhores devido a “um aproveitamento pouco ético da política de automóveis da empresa” segundo um email a anunciar a nova mudança.

O regime monarquico não está apenas circunscrito às pequenas e médias unidades fabris em que o mal-amado patrão exerce o seu poder absoluto. É também assim que são muitos lideres de call-centers, superfícies comerciais e até de empresas multinacionais daquelas bem sexy. No entanto, a predominância deste tipo de regime não é um problema da personalidade de que é escolhido para as dirigir, nem é o resultado de uma conspiração oculta para manter uma elite no topo. É a consequência da forma como os colaboradores tratam quem os chefia e da forma como os líderes se deixam acomodar nas confortáveis poltronas do poder.

Para os colaboradores, a experiência do dia a dia é instavél e imprevisível – as mudanças parecem ditadas por pouco mais do que os volúveis caprichos de um déspota. Para quem está ao leme da empresa, a experiência é de uma profunda solidão numa prisão dourada de quem ninguém se atreve a aproximar.

Criar a méritocracia necessária á inovação e à competitividade é um desafio conjunto de quem manda e de quem obedece – uma tarefa cada vez mais urgente à medida que o mercado traz novas oportunidades e ameaças.
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