discutir a gestão

coluna de opinião no Diário Económico

Natal com os copos

Este é o mês dos jantares de Natal das empresas. Nestas alegres festas de harmonia e confraternização, os gestores mais eficazes trocam os incentivos, a visão e o ‘coaching’ pelo vodka, pelo whisky e pela cerveja na sua caixa de ferramentas de liderança de equipas. Estas e outras bebidas alcoólicas podem resolver os conflitos internos, solidificam o laços entre os seus membros e asseguram os níveis de energia necessários para ultrapassar novos desafios.

As equipas vão acumulando uma tensão muda ao longo do ano. Os debates, as diferenças de opinião e as críticas mais ou menos construtivas acabam por gerar pequenos mal-estares pessoais que podem levar a conflitos no seio do grupo. A embriaguez típica das festas de Natal é uma oportunidade para libertar toda esta energia negativa. Depois de um par de copos de whisky, um membro da equipa pode dizer a outro, “sabes Tozé, acho que és uma besta e estou farto das tuas críticas pseudo-construtivas!” O Tozé, já com três vodkas e uma caipirinha provavelmente nem se lembrará bem do que ouviu no dia seguinte. Se duas gramas de álcool por litro de sangue não forem suficientes para lhe afectar a memória, o colega tem toda a legitimidade para pedir desculpa dizendo, “não sei o que é que me deu, mas não leves aquilo de ontem a sério, estava com os copos.” O resultado do rosário de espisódios deste tipo que vão ocorrendo ao longo da noite é um grupo de trabalho livre de tensões e conflitos latentes.

A embriaguez não só permite comentários menos simpáticos para com os colegas de equipa como também autoriza comportamentos que envergonhariam o mais descarado dos palhaços em qualquer dos circos que voltam à vida nesta quadra. As festas de Natal são o terror dos empregados do sector da restauração e da hotelaria pelo elevado nível de infantilidade e baixo nível de decoro habituais nestes convívios. No enanto, são estes comportamentos que além de demonstrarem que o Homem das Empresas não está tão longe do Homem das Cavernas como gostaría, também criam as recordações de que se alimenta o espírito de integração de que todas as equipas precisam. A Cristina e a Teresa a cantar “I will survive”, o Martim e o Tiago a dançarem como pinguins e outras experiências semelhantes são momentos de intensidade emocional e de solidariedade que reforçam os laços entre aqueles que neles participam.

As festas de Natal marcam o fim de um ano e o início de outro e esta é a sua função mais importante. São uma oportunidade para passar por um ritual de transição que tenha um efeito semelhante ao de fazer um ‘reset’ ao computador quando está a funcionar mais devagar. As equipas também precisam de terminar um ciclo e iniciar outro, esquecendo obstáculos, dificuldades e fracassos passados para terem a energia suficiente para enfrentarem aqueles que estão para vir. As festas de Natal cumprem a mesma função que os rituais que as tribos da África e do Pacífico Sul levam a cabo na transição de um ciclo agrícola para o outro: dar aos participantes a oportunidade de passar por uma mudança com efeitos regenarativos. O ritmo da músicas ‘dance’, ‘hip-hop’ e ‘house’ é idêntico às batidas dos tambores dos Ndembu, dos Pigmeus e dos aborígenes australianos. O abandono com o qual os membros destas tribos e os colaboradores das empresas se entregam à dança com a ajuda do álcool é também muito semelhante. Os efeitos são por isso muito parecidos: à medida que acaba a noite encerram-se doze meses de privação e trabalho e preparam-se o corpo e a alma para mais doze.

Nas empresas, as festas de Natal não são um momento de lazer, são um momento de liderança e controlo em que as regras que regulam o comportamento são temporariamente abandonadas para regressarem com poder renovado.

Em família, a noite de Natal é um momento de paz, harmonia e conciliação – esse é o objectivo. Mas para que este estado dure mais do que o Bolo Rei, então há que aprender com as empresas a purgar tensões, criar recordações e partilhar rituais de regeneração. Feliz Natal, com os copos.
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