Pequenos detalhes fundamentais
20/01/2009 18:27 Autor: Rui Grilo
Perceber o que conduz ao sucesso é fundamental.
Malcom Gladwell procurou fazer precisamente isso
com o seu livro "Outliers", publicado no fim de
2008 e já com versão portuguesa. O que leva algumas
pessoas a erguer-se acima da multidão?
Naturalmente que o talento, a perseverança e o esforço pessoal são fundamentais, mas esses méritos não chegam, ao contrário do que as biografias oficiais nos querem fazer crer. Gladwell mostra-nos como as oportunidades, o contexto cultural e os acasos desempenham também um papel fundamental. Se percebermos alguns padrões ocultos do sucesso de Bill Gates, dos Beatles ou de Oppenheimer, talvez possamos remover barreiras que nos impedem de triunfar.
Dizer que as circunstâncias são fundamentais para o sucesso pode parecer uma ideia perfeitamente óbvia. Mas a verdade é que não é. Muitas condições para o sucesso estão escondidas sob a superfície do que nos é familiar. Um exemplo. No futebol, como na maior parte dos desportos colectivos, os jogadores passam por uma longa formação que selecciona os melhores, levando-os a ascender ao desporto profissional e, eventualmente, ao estrelato. Como todos sabemos, esse período de formação está divido por classes etárias. É preciso definir critérios precisos, estabelecendo, por exemplo, que numa determinada competição só podem entrar jogadores que tenham nascido a partir de 1 de Janeiro de um determinado ano. Surpreendentemente, em vários desportos - do hóquei ao basquetebol e ao futebol - a maior parte dos jogadores de topo nasceram muito perto dessa data. Como é que nascer no primeiro trimestre pode fazer tanta diferença?
Nos desportos mais competitivos a selecção dos melhores começa muito cedo. Os treinadores encorajam os seus melhores jogadores que, por sua vez, se esforçam mais. Na transição da infância para a adolescência 11 ou 12 meses de diferença na idade traduzem-se numa grande diferença de desenvolvimento físico. Assim, o treinador pode confundir maior maturidade com talento e encorajar os jogadores ligeiramente mais velhos, tornando-os efectivamente melhores. Tal como uma borboleta que desencadeia uma tempestade longínqua com o seu bater de asas, uma pequena vantagem inicial torna-se numa diferença extraordinária. Por curiosidade, fui verificar em que data nasceu Cristiano Ronaldo: 5 de Fevereiro...
O momento em que se nasce é apenas uma das circunstâncias que conta no caminho para o sucesso. A herança cultural com que nascemos também desempenha um papel fundamental. Por exemplo, a capacidade de se fazer ouvir pode ter uma importância dramática. Gladwell dá exemplos de vários desastres de avião que podiam ter sido evitados se os respectivos capitães tivessem ouvido e compreendido os alertas do seu primeiro oficial. A comunicação "mitigada", através da qual, por cortesia, transformamos uma ordem ou um pedido numa sugestão, prejudica a comunicação eficaz. A utilização de títulos hierárquicos e formais aumenta o distanciamento de poder entre os interlocutores e torna a comunicação, involuntariamente, mais cerimoniosa e "mitigada". Para reduzir os erros humanos, várias companhias aéreas esforçaram-se por contrariar essa barreira à comunicação, impondo às tripulações o tratamento pelo primeiro nome e treinando a assertividade e confiança dos primeiros oficiais.
Os gestores portugueses deviam levar muito a sério estes pequenos detalhes do nosso dia-a-dia em sociedade. Tal como entre as malogradas tripulações colombianas ou sul-coreanas mencionadas por Gladwell, também nas nossas organizações há um excesso de formalismos e cuidados. É diferente dizer ao "sr. engenheiro" que "talvez não estejam ainda reunidas as condições necessárias" do que alertar o António para o grande disparate que está a querer fazer. A informalidade não é uma moda passageira. Pode marcar a diferença entre uma organização aberta e capaz de reagir e uma empresa condenada ao fracasso. É por isso que, para quem está em posições de gestão, saber ouvir não é apenas uma regra de boa educação, pode ser a competência essencial para conseguir sobreviver nestes tempos turbulentos...
Naturalmente que o talento, a perseverança e o esforço pessoal são fundamentais, mas esses méritos não chegam, ao contrário do que as biografias oficiais nos querem fazer crer. Gladwell mostra-nos como as oportunidades, o contexto cultural e os acasos desempenham também um papel fundamental. Se percebermos alguns padrões ocultos do sucesso de Bill Gates, dos Beatles ou de Oppenheimer, talvez possamos remover barreiras que nos impedem de triunfar.
Dizer que as circunstâncias são fundamentais para o sucesso pode parecer uma ideia perfeitamente óbvia. Mas a verdade é que não é. Muitas condições para o sucesso estão escondidas sob a superfície do que nos é familiar. Um exemplo. No futebol, como na maior parte dos desportos colectivos, os jogadores passam por uma longa formação que selecciona os melhores, levando-os a ascender ao desporto profissional e, eventualmente, ao estrelato. Como todos sabemos, esse período de formação está divido por classes etárias. É preciso definir critérios precisos, estabelecendo, por exemplo, que numa determinada competição só podem entrar jogadores que tenham nascido a partir de 1 de Janeiro de um determinado ano. Surpreendentemente, em vários desportos - do hóquei ao basquetebol e ao futebol - a maior parte dos jogadores de topo nasceram muito perto dessa data. Como é que nascer no primeiro trimestre pode fazer tanta diferença?
Nos desportos mais competitivos a selecção dos melhores começa muito cedo. Os treinadores encorajam os seus melhores jogadores que, por sua vez, se esforçam mais. Na transição da infância para a adolescência 11 ou 12 meses de diferença na idade traduzem-se numa grande diferença de desenvolvimento físico. Assim, o treinador pode confundir maior maturidade com talento e encorajar os jogadores ligeiramente mais velhos, tornando-os efectivamente melhores. Tal como uma borboleta que desencadeia uma tempestade longínqua com o seu bater de asas, uma pequena vantagem inicial torna-se numa diferença extraordinária. Por curiosidade, fui verificar em que data nasceu Cristiano Ronaldo: 5 de Fevereiro...
O momento em que se nasce é apenas uma das circunstâncias que conta no caminho para o sucesso. A herança cultural com que nascemos também desempenha um papel fundamental. Por exemplo, a capacidade de se fazer ouvir pode ter uma importância dramática. Gladwell dá exemplos de vários desastres de avião que podiam ter sido evitados se os respectivos capitães tivessem ouvido e compreendido os alertas do seu primeiro oficial. A comunicação "mitigada", através da qual, por cortesia, transformamos uma ordem ou um pedido numa sugestão, prejudica a comunicação eficaz. A utilização de títulos hierárquicos e formais aumenta o distanciamento de poder entre os interlocutores e torna a comunicação, involuntariamente, mais cerimoniosa e "mitigada". Para reduzir os erros humanos, várias companhias aéreas esforçaram-se por contrariar essa barreira à comunicação, impondo às tripulações o tratamento pelo primeiro nome e treinando a assertividade e confiança dos primeiros oficiais.
Os gestores portugueses deviam levar muito a sério estes pequenos detalhes do nosso dia-a-dia em sociedade. Tal como entre as malogradas tripulações colombianas ou sul-coreanas mencionadas por Gladwell, também nas nossas organizações há um excesso de formalismos e cuidados. É diferente dizer ao "sr. engenheiro" que "talvez não estejam ainda reunidas as condições necessárias" do que alertar o António para o grande disparate que está a querer fazer. A informalidade não é uma moda passageira. Pode marcar a diferença entre uma organização aberta e capaz de reagir e uma empresa condenada ao fracasso. É por isso que, para quem está em posições de gestão, saber ouvir não é apenas uma regra de boa educação, pode ser a competência essencial para conseguir sobreviver nestes tempos turbulentos...
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