discutir a gestão

coluna de opinião no Diário Económico

Elogio da pobreza

Uma pesquisa na Internet mostra que a palavra “empreendorismo” aparece muitas vezes associada à palavra “apoios”. No ‘site' empreendorismo.pt aparecem 25 programas, iniciativas e financiamentos para aqueles que pretendem criar a sua empresa. Estes apoios são um desperdício. Se o objectivo é ajudar as pessoas a criar o seu próprio emprego não é preciso ir além do micro-crédito. Se o objectivo é potenciar a inovação, os apoios são desnecessários.

O micro-crédito tem muitas vantagens como forma de criação de emprego. A minha preferida é o aumento do nível democrático. As empresas são,muitas vezes, sistemas feudais em que aqueles que têm mais poder informal têm um conjunto de vassalos que esperam uma oportunidade para acelerar a sua carreira. As empresas pequenas, como aquelas que os financiamentos ao empreendorismo apoiam, a relação patrão-empregado é paternalista e baseia-se em laços de lealdade e obediência. Nas micro-empresas as relações são mais próximas da parceria do que do autoritarismo. Um país com 1.000.000 de micro empresas com uma ou duas pessoas é mais democrático do que um país com 10.000 empresas com cem empregados cada uma.

Há muitos casos que demonstram que a inovação não só dispensa apoios como beneficia da sua ausência. A história da Lotus, uma das mais inovadoras empresas de automóveis a nível mundial, é um exemplo interessante. Colin Chapman, o fundador, começou por liderar uma equipa de voluntários que construiu 6 carros diferentes sem dinheiro nenhum. O ‘design' de um deles, o Lotus 6, está na origem do Seven: o carro mais imitado da história, com mais de vinte fabricantes de réplicas na actualidade. Era tão inovador que chegou a ser banido da competição automóvel internacional por ser considerado "demasiado rápido" apesar de ter pouco mais de 200 cavalos na sua versão mais potente.

A ausência de apoios foi importante para os primeiros sucessos da Lotus. Chapman dependia da ajuda de pessoas de áreas que tinham pouco a ver com a construção automóvel mas que eram obcecadas pelo seu trabalho e por isso disponíveis para trabalhar horas a fio sem qualquer recompensa monetária. Uma destas pessoas foi Frank Costin, um engenheiro aeronáutico que trouxe para o mundo automóvel os princípios de ‘design' e produção da aviação. Foi Costin que esteve na origem do Lotus Mark 8 e do seu sucessor, o Lotus Eleven cuja cuidada construção aerodinâmica os tornou dois dos carros de competição melhor sucedidos de sempre. A escassez de dinheiro obrigou também a empresa a especializar-se no ‘design' de chassis e suspensões, recorrendo aos motores desenvolvidos por outros construtores. A Lotus foi empurrada para um nicho onde é, ainda hoje, líder mundial.

Casos como o da Lotus e o da Virgin, mostram que as políticas de financiamento fazem mais parte do problema do que parte da solução. É mais importante apresentar desafios e oportunidades aos futuros empreendedores do que atirar-lhes com dinheiro. A Lotus apareceu para responder ao apetite dos ingleses por desportos motorizados no pós-Segunda Guerra Mundial, em que a gasolina era racionada. A Virgin aproveitou um conjunto de restrições impostas à venda da música na Inglaterra para vender discos de qualidade com grandes descontos. Se a União Europeia e os governos dos Estados membros querem de facto potenciar a inovação devem concentrar-se em dois factores fundamentais de sucesso. O primeiro é criar desafios que possam ser aproveitados como oportunidades de mercado para capturar a imaginação dos futuros empreendedores.

O segundo é festejar os projectos mais promissores para desmistificar o empreendorismo e criar um palco em que os investidores possam ter acesso às melhores ideias para as levar de mão dadas até ao mercado. Enquanto o enfoque estiver no financiamento, o sector que de facto beneficiará de elevados níveis de empreendorismo é o da elaboração de projectos para fundos comunitários.
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