As tecnologias do poder
11/01/2008 20:38 Autor: Rui Grilo
Quando falamos de poder, as imagens mentais que nos
ocorrem referem-se, frequentemente, a situações de
domínio, nas quais uma parte sujeita a outra à sua
vontade. "Ter poder" é entendido como sinónimo de
ser capaz de controlar. Mas quando se diz "ter
poder" estamos a entender o poder como se fosse uma
coisa, algo cuja posse se pudesse deter e assim
usar. Será esse o caso? A noção convencional de
"poder" confunde-se demasiado com autoridade e
liderança, e é difícil retirar-lhe o peso das
associações aparentemente óbvias a hierarquia,
estatuto e controlo. Mas o poder é mais do que isso
e pode até ser muito útil entendê-lo de forma
radicalmente diferente.
Mesmo que não tenhamos consciência disso, o poder faz parte da nossa experiência de vida todos os dias. Em todas as nossas relações existe um vínculo que resulta da nossa interacção com os outros. As nossas acções e vontades influenciam e condicionam os que estão à nossa volta, tal como as suas acções e vontades nos condicionam a nós. É nessa interacção que consiste, afinal, o poder. Não como uma força que vem de fora e nos impõe um caminho, mas sim como um laço que nos une aos outros e nos dificulta algumas acções e facilita outras. O poder resulta assim de algo muito simples: em maior ou menor grau, todos dependemos uns dos outros.
É óbvio que isto não significa que o poder esteja distribuído de forma uniforme ou equilibrada. Cada pessoa tem possibilidades diferentes de influenciar e condicionar o que se passa à sua volta. É por isso que em cada relação se estabelece alguma forma de equilíbrio de poder, instável ou relativamente estável. Foi o sociólogo Norbert Elias quem primeiro propôs de forma mais convincente esta noção relacional do poder, explicando como ele está presente quer no processo civilizacional que nos conduziu até à sociedade em que vivemos hoje, quer na "luta" por estatuto entre quaisquer dois grupos de seres humanos ou mesmo dentro desses grupos.
É essa luta pela capacidade de influenciar (e pelo estatuto associado a essa influência) que transporta a noção de poder para as organizações. Uma organização não é mais do que um grupo de pessoas que partilha interesses comuns ou interdependentes e que, por isso, se mantém coeso. E numa organização não há, sejamos francos, nenhum tema mais importante do que o poder. Em qualquer empresa se sente o peso do equilíbrio de poder, das relações que o mantêm e dos acontecimentos que provocam ou reforçam a sua instabilidade e a sua alteração. Não se fala abertamente em poder (aparentemente, a palavra assusta), mas a verdade é que esse é o tema quando se assiste à ascensão e queda tanto de gestores e como de políticos.
Apesar de não ser discutido como tal, é o poder a motivação consciente ou inconsciente de muitos processos dados como adquiridos na vida empresarial. Desde os pactos sociais e as obrigações de prestar contas, até aos códigos de conduta nas reuniões formais dos órgãos de gestão de uma empresa, tudo se conjuga para um fim. O filósofo francês Michel Foucault chamou a esses processos "tecnologias de poder", ou seja, tentativas de manter um certo equilíbrio de poder. Mas ele próprio apontou para a forma como essas "tecnologias" provocam uma reacção que leva frequentemente a efeitos imprevistos. Por mais "blindados" que estejam uns estatutos, basta a erosão do equilíbrio de poder que lhes deu origem para que essa "blindagem" seja ultrapassada. Pelo contrário, se esse equilíbrio se mantiver, os obstáculos formais tornam-se puramente redundantes, como exemplos recentes da nossa vida empresarial demonstram de forma clara.
As "tecnologias de poder" não se encontram apenas nos instrumentos de governo de uma sociedade. São transportados para a experiência corrente por práticas tão comuns como a gestão de projectos, com os seus procedimentos de controlo e vigilância. Dizer que algo serve manter um certo equilíbrio de poder não é necessariamente negativo. É preciso é que estejamos mais conscientes da forma como o poder está presente em quase tudo e como é constantemente negociado e recriado.
Mesmo que não tenhamos consciência disso, o poder faz parte da nossa experiência de vida todos os dias. Em todas as nossas relações existe um vínculo que resulta da nossa interacção com os outros. As nossas acções e vontades influenciam e condicionam os que estão à nossa volta, tal como as suas acções e vontades nos condicionam a nós. É nessa interacção que consiste, afinal, o poder. Não como uma força que vem de fora e nos impõe um caminho, mas sim como um laço que nos une aos outros e nos dificulta algumas acções e facilita outras. O poder resulta assim de algo muito simples: em maior ou menor grau, todos dependemos uns dos outros.
É óbvio que isto não significa que o poder esteja distribuído de forma uniforme ou equilibrada. Cada pessoa tem possibilidades diferentes de influenciar e condicionar o que se passa à sua volta. É por isso que em cada relação se estabelece alguma forma de equilíbrio de poder, instável ou relativamente estável. Foi o sociólogo Norbert Elias quem primeiro propôs de forma mais convincente esta noção relacional do poder, explicando como ele está presente quer no processo civilizacional que nos conduziu até à sociedade em que vivemos hoje, quer na "luta" por estatuto entre quaisquer dois grupos de seres humanos ou mesmo dentro desses grupos.
É essa luta pela capacidade de influenciar (e pelo estatuto associado a essa influência) que transporta a noção de poder para as organizações. Uma organização não é mais do que um grupo de pessoas que partilha interesses comuns ou interdependentes e que, por isso, se mantém coeso. E numa organização não há, sejamos francos, nenhum tema mais importante do que o poder. Em qualquer empresa se sente o peso do equilíbrio de poder, das relações que o mantêm e dos acontecimentos que provocam ou reforçam a sua instabilidade e a sua alteração. Não se fala abertamente em poder (aparentemente, a palavra assusta), mas a verdade é que esse é o tema quando se assiste à ascensão e queda tanto de gestores e como de políticos.
Apesar de não ser discutido como tal, é o poder a motivação consciente ou inconsciente de muitos processos dados como adquiridos na vida empresarial. Desde os pactos sociais e as obrigações de prestar contas, até aos códigos de conduta nas reuniões formais dos órgãos de gestão de uma empresa, tudo se conjuga para um fim. O filósofo francês Michel Foucault chamou a esses processos "tecnologias de poder", ou seja, tentativas de manter um certo equilíbrio de poder. Mas ele próprio apontou para a forma como essas "tecnologias" provocam uma reacção que leva frequentemente a efeitos imprevistos. Por mais "blindados" que estejam uns estatutos, basta a erosão do equilíbrio de poder que lhes deu origem para que essa "blindagem" seja ultrapassada. Pelo contrário, se esse equilíbrio se mantiver, os obstáculos formais tornam-se puramente redundantes, como exemplos recentes da nossa vida empresarial demonstram de forma clara.
As "tecnologias de poder" não se encontram apenas nos instrumentos de governo de uma sociedade. São transportados para a experiência corrente por práticas tão comuns como a gestão de projectos, com os seus procedimentos de controlo e vigilância. Dizer que algo serve manter um certo equilíbrio de poder não é necessariamente negativo. É preciso é que estejamos mais conscientes da forma como o poder está presente em quase tudo e como é constantemente negociado e recriado.
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