A retórica
23/02/2007 20:16 Autor: José Manuel
Fonseca
Hoje em dia, somos bafejados pela afortunada
aparição de produtos que nos oferecem quase tudo o
que um cidadão da pós-modernidade necessita para
ser completamente feliz e integrado na sociedade e
nos seus grupos. Objectos híbridos e minúsculos que
nos permitem telefonar, ver filmes, assistir em
directo à novela das sete, das nove, das dez e,
quem sabe, mesmo e inclusive, a das onze, para
além, de armazenarem as fotos dos casamentos,
baptizados, festas realizadas em todo o hemisfério
norte, mais os vídeos do National Geographic ou de
todas as séries de conselhos práticos do it
yourself do Turquemenistão, mais a nossa agenda com
dezoito níveis de alarmes, para nunca esquecermos o
dia em que se comemora o aniversário da primeira
vez que comprámos uma garrafa de azeite no
supermercado com aquela que viria a ser a nossa
mulher (uma coisa que os homens tem particular
tendência a não recordarem e que está na origem dos
divórcios), armazenar os álbuns de músicas da nossa
juventude, ter online os conselhos úteis para nos
relembrarmos do que se espera de nós numa
entrevista de emprego mesmo com tutorial de ensaio
final, ligação automática de hora a hora ao centro
de domótica lá de casa para sabermos da evolução do
stock de alho francês na prateleira da esquerda do
frigorífico, ligação contínua ao GPS localizado no
telemóvel dos nossos filhos e com os mapas de
Azeitão e Ullapool, marcação automática de
consultas de reiki, monitor cardíaco, consulta de
saldos do cartão de débito, planeamento fiscal...
No marketing, há muito que se fala de uma dimensão mental dos produtos. Para alem do produto em si mesmo (as suas características físicas, a electrónica ou a química da coisa, as dimensões, resistências, energias), e do produto “estendido”, com as suas assistências pós venda, garantias, peças de substituição e acessórios, há aquilo que cada um “vê” no produto. E, com correcta identificação dos segmentos de mercado e das idiossincrasias de cada um, pode-se “desenhar” a politica de comunicação adequada à motivação da acção de compra por parte de pessoas convencidas ou persuadidas que irão adquirir, por exemplo, através de um mero leitor de mp3, a entrada para a galeria dos famosos, senão do país, pelo menos do salão de cabeleireiro da paróquia. A posse dos produtos (já nem sequer estamos a falar de utilização, porque a utilização é por vezes bastante complexa e incerta) está associada a significados que transcendem as suas características funcionais e reais. Neste sentido, assistimos à explosão da dimensão “retórica” dos produtos. À construção de mensagens que nos transportam para universos paralelos e fabulosos de fantasias mais ou menos benignas, se, nos deslocarmos a um qualquer estabelecimento e adquirirmos um magnifico e extraordinariamente exotérico seguro de acidentes pessoais ou automóvel...
No meio deste mundo admiravelmente novo emergem palavras que comportam ressonâncias arcanas e mágicas como Customer Satisfaction! Em qualquer universidade que se preze, mormente já em Bolonha, a litania da satisfação do cliente deve ser administrada como um mantra. Embora na próxima revisão da coisa se deva, quem sabe, ensinar aos alunos os simples sistemas de equações de trinta e quatro variáveis necessários para descodificar os planos de tarifários das operadoras de telecomunicações...
E, é difícil não sermos contagiados por este verdadeiro vírus da felicidade, quando passados os dois anos de garantia do produto, é mais barato comprar um produto novo que mandar reparar o antigo, sendo que o novo produto já tem mais cem milhões de pixels que o antigo, ou as rpm mais que triplicaram entretanto, ou quando, ainda dentro da garantia, apenas passados dois ou três meses de espera nos devolvem o produto completamente novo e com um chip de cem “menréis” devidamente reparado na Lapónia Oriental...
Eu confesso que, enquanto aguardo a realização do sonho de um vida inteira, de ter um telemóvel que me permita ver em cinemascope o último episódio da novela das seis, não me importava de possuir produtos que simplesmente funcionassem...
No marketing, há muito que se fala de uma dimensão mental dos produtos. Para alem do produto em si mesmo (as suas características físicas, a electrónica ou a química da coisa, as dimensões, resistências, energias), e do produto “estendido”, com as suas assistências pós venda, garantias, peças de substituição e acessórios, há aquilo que cada um “vê” no produto. E, com correcta identificação dos segmentos de mercado e das idiossincrasias de cada um, pode-se “desenhar” a politica de comunicação adequada à motivação da acção de compra por parte de pessoas convencidas ou persuadidas que irão adquirir, por exemplo, através de um mero leitor de mp3, a entrada para a galeria dos famosos, senão do país, pelo menos do salão de cabeleireiro da paróquia. A posse dos produtos (já nem sequer estamos a falar de utilização, porque a utilização é por vezes bastante complexa e incerta) está associada a significados que transcendem as suas características funcionais e reais. Neste sentido, assistimos à explosão da dimensão “retórica” dos produtos. À construção de mensagens que nos transportam para universos paralelos e fabulosos de fantasias mais ou menos benignas, se, nos deslocarmos a um qualquer estabelecimento e adquirirmos um magnifico e extraordinariamente exotérico seguro de acidentes pessoais ou automóvel...
No meio deste mundo admiravelmente novo emergem palavras que comportam ressonâncias arcanas e mágicas como Customer Satisfaction! Em qualquer universidade que se preze, mormente já em Bolonha, a litania da satisfação do cliente deve ser administrada como um mantra. Embora na próxima revisão da coisa se deva, quem sabe, ensinar aos alunos os simples sistemas de equações de trinta e quatro variáveis necessários para descodificar os planos de tarifários das operadoras de telecomunicações...
E, é difícil não sermos contagiados por este verdadeiro vírus da felicidade, quando passados os dois anos de garantia do produto, é mais barato comprar um produto novo que mandar reparar o antigo, sendo que o novo produto já tem mais cem milhões de pixels que o antigo, ou as rpm mais que triplicaram entretanto, ou quando, ainda dentro da garantia, apenas passados dois ou três meses de espera nos devolvem o produto completamente novo e com um chip de cem “menréis” devidamente reparado na Lapónia Oriental...
Eu confesso que, enquanto aguardo a realização do sonho de um vida inteira, de ter um telemóvel que me permita ver em cinemascope o último episódio da novela das seis, não me importava de possuir produtos que simplesmente funcionassem...
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